Conto publicado no jornal "O ilhéu", em Setembro de 2013, divulgando antologias de contos da editora Andross das quais participei à época
Gostaria de ser como as palavras... Na impossibilidade de sê-lo, sou escritor; assim, mantemos contato.
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sexta-feira, 19 de julho de 2019
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
Esta casa tem... (Ou "A horrível, perturbadora e interminável fonte de horrores")
Conto poetizado sobre o mal
Deterioração da mente sobre a matéria, de Otto Rapp
Um jovem fez uma aposta com amigos: Adentrar uma casa
que, segundo rezava a lenda, era mal assombrada.
Desde então nunca mais o viram.
Diante da porta do sinistro casarão foi encontrado,
assinado pelo desaparecido, o seguinte escrito:
Esta casa tem...
Companhia na solidão.
Uma presença no porão.
O ressoar de uma maldição.
O ladrar persistente de um cão.
Os constantes estrondos do trovão.
Vozes caladas.
Pessoas peladas.
Línguas arrancadas.
Almas condenadas.
Outras desencarnadas.
Ecos em salas abarrotadas.
Pessoas idosas sendo torturadas.
Arrepiantes e inesperadas gargalhadas.
Doces salgados.
Fetos abortados.
Loucos embriagados.
Leitores incomodados.
Cômodos desocupados.
Bonecos de vodu costurados.
Criminosos há muito procurados.
Passagens de vultos intercalados.
Órgãos reprodutores amputados.
Preservativos sujos reaproveitados.
Coisas cabeludas.
Aberrações fecundas.
Miados de crias felpudas.
O gritar de pessoas mudas.
Portas abertas por mãos peludas.
Espelhos refletindo coisas absurdas.
Carcaças dilaceradas por garras imundas.
Furo na veia aorta.
Frutos podres na horta.
Gente que não se importa.
Pessoa que não se comporta.
O trabalhar da lâmina que corta.
Fulana caminhando mesmo após morta.
Campainha tocando sem ninguém à porta.
Mordomo estranho de voz grossa e boca torta.
Pessoas tentando desviar a atenção do que importa.
A serpente e seu mérito.
Escarros pendurados no teto.
Um sentimento ruim sempre perto.
Corredores repletos de vômito fétido.
O caminhar de um corpo totalmente gélido.
A morte executando um movimento intrépido.
O gargalhar de alguém completamente histérico.
Crianças chorando no banheiro.
Vozes sussurrando o tempo inteiro.
Lâmina ensanguentada de barbeiro.
Mãos saindo de dentro do travesseiro.
Um maníaco com uma faca, sorrateiro.
Mulheres escandalosas fugidas de um puteiro.
Alguém falando em estranho idioma estrangeiro.
Indivíduos muito mal intencionados.
Espíritos barulhentos, mal educados.
Quartos supostamente desocupados.
Homens falando sozinhos, impressionados.
Vermes rastejantes por espetos trespassados.
Quartos mal iluminados, muitos deles assombrados.
Sujeitos bem acompanhados, mas muitos deles calados.
Um espírito atormentado atormentando inquilinos desequilibrados.
E um anfitrião invisível e muito, muito perturbador, trazendo a vida a seres inanimados.
terça-feira, 23 de junho de 2015
Corporal
Sofro.
Sofro sim.
Sofro sim.
Sofro muito.
Mas meu sofrimento...
O meu sofrimento é mera e unicamente corporal.
Meus braços queixam-se, compreensivelmente, por ser movimentados para outra
atividade que não seja segurar-te. Abraçar-te.
Minhas mãos e os meus dedos estão profundamente frustrados por não poderem
contornar, estudando, demoradamente, cada linha harmoniosa do teu gracioso
rosto.
As minhas pernas e os meus pés estão revoltados, pois minhas caminhadas já não mais os levam até ti. E deixaram claro que por mais distante, árduo e sôfrego que
seja o trajeto, o completariam com prazer para realizarem este nosso
reencontro.
O meu peito clama, dolorosamente, todas as santas noites insones, pelo recostar
e repousar da tua cabeça. Espera poder novamente aninhar-te.
Os meus cabelos, pobres coitados, exigem, ao menos uma vez mais a delícia de
por ti serem tocados, percorridos e alisados.
Meus ouvidos se entristecem somente em rememorar o fato de que já não irão
mais ouvir a tua doce voz, que a eles tão bem fazia.
Meu nariz fareja, constantemente, onde quer que esteja, na esperança vã de
captar um resquício da tua acalentadora fragrância natural. Do teu maravilhoso
perfume.
Os meus olhos... Ah, os meus olhos! De tão fiéis a ti, fizeram greve por tempo
indeterminado. Alegando causa inegociável, eles se recusam a abrir, a não ser
que seja na tua presença. Choram inesperada e constantemente a tua ausência.
Os meus lábios movimentam-se sem vontade, certos de que as minhas palavras não
chegarão até você. E não são raras as vezes em que os flagro pronunciando,
baixinho, com saudades, o teu belo nome.
O meu cérebro, dono de uma memória infalível, insiste em me levar em um passeio
nostálgico pelos momentos maravilhosos que contigo compartilhei. Nele, só
existe você, você e você. Trata-se de um espaço, de um altar, de pureza,
tributo e adoração eternos.
E o meu coração... O meu coração, no cumprimento leal das obrigações de suas
funções, bate fraco, descompassado, triste. Repleto de amor, não quer ser
entregue a outra pessoa que não seja a você.
Continho anteriormente publicado no Recanto das Letras
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Sopro
Fazia já bastante tempo que não
havia quem a viesse visitar. Fazia bastante tempo, também, que não havia quem
ela visitasse. Todos a quem conhecera, amados, odiados, queridos, indesejados,
se haviam ido, soprados definitivamente da existência por aquela força milenar,
incompreensível, irresistível e inevitável, a que a velha chamava de Fim. Mas
ainda assim a velha prosseguia. A lenha que a mantinha aquecida era o passado. Seu
combustível era uma mescla de lembranças e de saudades.
E pensava nisso quando se deu
conta de que lá fora tudo era silêncio. O mundo emudecera.
Uma fumegante xícara de chá
depositada sobre a mesa de centro permanecia intocada. As cortinas da janela da
sala começaram a ser sopradas por uma delicada brisa; brisa esta que trazia
para o interior da casa o cheiro puro e deliciosamente adocicado e primaveril das
flores do jardim. A velha largou a bengala e ouviu o som oco e ecoante que o
instrumento fez ao chocar-se contra o assoalho atapetado. Os ponteiros do
relógio na parede pareceram mover-se cada vez mais vagarosamente, até cessarem
por completo seu costumeiramente ininterruptível trabalhar.
A velha agarrou-se aos braços da
poltrona como um náufrago se agarra aos destroços de um navio. Teve medo porque
sabia que era o Fim que chegava. Mas, repentinamente, permitiu-se relaxar.
Morreria sozinha, mas seu corpo poderia se despedir da vida, decompor-se, no
silêncio, longe da tristeza dos vãos ritos funerários.
O que todos temiam era o mistério
do Fim, mas essa brisa sobre ela já estava soprando.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Prévia de "A Cura"
Minha noveleta, A Cura, editada pela Navras, está disponível para venda, em formato e-book, na Amazon. Quem tiver um Kindle, ou o aplicativo instalado no computador ou celular, poderá comprá-la ou então baixar a prévia (amostra grátis) no canto direito da tela - Acesso Aqui .
Em "A Cura", o jovem Piêro segue em uma existência sem rumo até que descobre o amor, e, com ele, um dom que traz sentido a sua vida. A trama versa sobre a inevitabilidade do destino e no quanto podemos fazer a diferença na vida daqueles que nos circundam.
Como bônus, o e-book traz o pequeno "Evelin, os Anjinhos e a Dor", que mostra a história de uma pequena psicopata e sua perturbadora visão do mundo. Este conto compõe a antologia conjunta "Pequenos Demônios", também da Navras (no prelo).
A compra de "A Cura" dá direito a participação na "Batalha dos e-books", onde o leitor concorre a um Kindle Wifi + 5 livros + 50 marcadores. Mais detalhes Aqui .
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Quando o trem partiu
A viagem naquela tarde prosseguiu
normalmente até que bateram à porta da cabine da máquina.
-Abra Misael... – Era a voz do
bilheteiro que apelava ao condutor – Pelo amor de Deus, abra essa porta!
Assim que a cabine foi aberta, o maquinista
viu-se diante da seguinte cena: O bilheteiro rendido por dois mascarados que o
aterrorizavam com uma pistola em cada têmpora.
-Pare o trem, homem! – Ordenou um
dos mascarados, fazendo pontaria no peito de Misael – Se fizer tudo certo,
ninguém morre hoje.
Como o condutor vacilasse, o
bandido tratou de explicar:
-Temos quase uma dúzia de homens
aqui dentro. Todos os vagões estão tomados, todos os passageiros dominados. Não
vai querer nenhuma morte em sua consciência, não é mesmo?
Misael freou o trem e ficou
aguardando as instruções dos criminosos. A partir deste ponto, aquele que
mirava a cabeça do bilheteiro passou a dar as cartas.
-Sejamos breves: Sabemos que um
de seus passageiros carrega uma mala repleta de barras de ouro do tesouro
nacional. O que ignoramos é a sua identidade. No entanto, temos a informação de
que você, senhor maquinista, a conhece.
-Não faço ideia do que estão... –
Mas Misael foi interrompido após receber uma forte coronhada, que o levou de
encontro ao chão.
-Sem jogos, que a informação e o
informante são quentes – O agressor grunhiu - Bem, temos duas opções para por
um fim nisso: Ou você nos conta quem é o homem, e isso seria o jeito mais
simples de resolver a questão, ou nós matamos você e o seu amiguinho aqui –
apontou o bilheteiro – e revistamos todas as bagagens da composição, apagando
quantos passageiros forem necessários para encontrar o que procuramos.
-E vocês não querem perder tempo
na busca porque estamos próximos da estação seguinte e os federais não
demorariam a vir assim que notassem a demora – Concluiu o maquinista, ainda zonzo
pela pancada recebida.
-Exato – O bandido coçou o rosto
sob a máscara – E então, o que vai ser?
-O passageiro está na cabine
dezoito – revelou Misael pesaroso - Emanuel González. Este é o homem que vocês
querem.
-Sábia decisão, muchacho! – O
criminoso gargalhou.
O maquinista e o bilheteiro foram,
então, amarrados de costas um para o outro. Assim que os dois mascarados se
afastaram da cabine, o bilheteiro murmurou:
-Então essa é a saída que encontraram
para evitar os assaltos, é? Os agentes do tesouro vão querer o teu couro por
essa, Misael.
-Tenho esposa e um menino
adoentado em casa, filho – O condutor suspirou – Morrer é um luxo o qual não
posso usufruir. Danem-se os agentes e o maldito tesouro!
-Esses bandidos de uma figa se
portaram como passageiros a viagem inteira! – Queixou-se o bilheteiro,
pensativo – Decerto que na hora de entrar apresentaram nomes falsos.
-É provável – Misael concordou.
-Será o bando dos irmãos Gun?
Aqueles dois que nos amarraram tinham até as vozes parecidas – Refletiu o
bilheteiro, ao que o amigo de trabalho pareceu não dar ouvidos.
Repentinamente, uma série de
tiros ecoou. Por longos minutos o mundo pareceu emudecer. Logo, um dos
passageiros chegava à cabine. Enquanto soltava os dois funcionários do trem,
relatou:
-Os criminosos crivaram de balas
um dos passageiros da cabine dezoito e levaram sua bagagem.
-Ele reagiu? – o bilheteiro
questionou.
-Pareceu que não – Respondeu o
passageiro, ainda desatando as cordas.
-Meu Deus! Mataram o homem em
vão! – Exclamou o maquinista.
-Não sei se foi bem assim – agora
o homem terminava com as cordas – Eles o agradeceram por uma “dica”.
-Então o próprio agente era o
delator! – Concluiu o bilheteiro – Mas qual era o objetivo daquela cena toda
aqui na cabine?
-Só poderia se tratar de um plano
para inocentar o homem da “dica” – Deduziu Misael - Mas na última hora os
criminosos parecem ter optado por eliminá-lo, tendo, assim, um elemento a menos
com quem dividir o pacote – voltou-se para o seu libertador – E os bandidos já
se foram?
-Sim. Homens a cavalo os
esperavam lá fora.
O maquinista olhou pela janela da
cabine e pôde ver o trotar dos animais erguendo poeirão lá longe no desértico
cenário cujo fim os olhos perdiam.
Quando o trem partiu, o
maquinista se permitiu sorrir aliviado: O agente assassinado passara por delator
e em breve Misael Júnior teria os remédios de que tão precisava.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
A Cura
Minha noveleta, "A Cura", está a venda na Amazon (acesso AQUI ) em formato e-book. Editora: Navras. Editor: Gustavo Gonçalves.
Sinopse:
"-É destino sim, Piêro. Está claro como a luz do dia. Mas não faça como muitos que se sentem impelidos a fazer algo e, por temor, mera covardia, não o fazem. É destino mesmo... Então se mostre a altura do que praticamente você foi incumbido e abrace a sua sina".
Sem rumo ou objetivo, Piêro utiliza-se da pureza do amor para moldar o próprio destino e fazer a diferença na vida daqueles que o circundam. Mas ele descobrirá que tudo tem um preço, até mesmo a bondade.
O bônus a que a capa se refere é o conto "Evelin, os anjinhos e a dor", que faz parte da antologia "Pequenos demônios", também da Editora Navras.
domingo, 20 de abril de 2014
Enquanto o vento sopra forte... / O bico do Beija-Flor
Os primeiros textos por mim produzidos no Curso Formação de Escritores da Casa do Escritor .
Rimadinha "O bico do Beija-Flor"
domingo, 16 de março de 2014
Antologia Sombrias Escrituras Vol. 2
Acabou de ser lançada a antologia Sombrias Escrituras Vol. 2. Composta por quinze contos e vinte e quatro poemas, a obra é dedicada ao goticismo, horror e terror. Organizada pelo Sr. Arcano , a coletânea é uma iniciativa do site Sombrias Escrituras , sendo publicada pela Editora Literata .
Participo do livro com o conto "Clarice e Tobias".
Lista dos autores participantes e suas respectivas obras:
Graziela Fusco Ramos (com o conto: "Fullhouse"); Eliane Verica (com o conto: "O couro do enforcado"); Carlos Santhos (com conto: "Uma visão do caos"); Igor Fernando (com o conto: "Morte, perfume e afins"); Douglas Briganti (com o conto: "A poça"); Thiago Roncada (com o conto: "O espantalho"); Igor Rangel (com o conto: "O passageiro das 21h"); Carla Witch Princes (com o conto: "A vampira medieval" e com o poema: "Anoitecer"); Thiago Lucarini (com o conto: "O relógio do demônio da morte"); Jonatas Rubens Tavares (com o conto: "Clarice e Tobias"); Celso Carvalho (com o conto: "O caçador de vampiros"); Davi M. Gonzales (com o conto: "Parasita"); Élcio Guerra (com o conto: "Dictum Et Factum"); Mario Carneiro Jr. (convidado especial, com o conto: "O lençol"); Sr. Arcano (com o conto: "Texto assombrado" e com o poema: "Noite má"); Suzy M. Hekamiah (com o poema: "Melodia"); Edir Araújo (com o poema: "Aflição noturna"); Jairo Lopes (com o poema: "Breu"); Karin Carteri (com o poema: "Noite"); Karoline Costa (com o poema: "Dama gentil"); Ana Angélica Ferrazi (com o poema: "Dark angel"); Barata Cichetto (com o poema: "Serena"); Johnathan Bertsch (com o poema: "Carne viva"); Jhony Crusius (com o poema: "Nove pesadelos durante a noite"); Dani Uglione (com o poema: "Nessa noite a lua jaz em mim"); Vulto Escuro (com o poema: "Linda-Profana"); Geraldo Trombin (com o poema: "Quando ela caiu"); Edweine Loureiro (com o poema: "Irrequieta"); Orfeu Brocco (com o poema: "À meia-noite"); Maysa Lennox (com o poema: "Beijo noturno"); Hélio Flávio (com o poema: "Sonho funesto sob o fumo opaco"); Rodrigo Picon (com o poema: "À noite"); Rogerio Luz (com o poema: "Rumo à noite"); Theo Hursheine (com o poema: "Hora de dormir"); Sueli Aduan (com o poema: "Transitoriedade"); Aquino de Souza (com o poema: "Turno absoluto"); e Núbia Cavalcanti (com o poema: "Noite sem luar").
Vídeo de divulgação do livro:
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
A cauda do diabo
Texto a ser publicado na antologia "Contos do outro mundo" da Câmara Brasileira de Jovens Escritores.
Naquela madrugada, Rafael foi
desperto pelo irmão.
-Acorde Rafa! – Lucas chamava,
cutucando desesperada e insistentemente o braço do adormecido – Por favor,
acorde!
-O que há Luquinha? – Rafael
encontrou o caçula dependurado sobre a sua
cama do beliche.
-Um homem acabou de passar aqui!
Rafael estudou o quarto, cujos
acessos estavam fechados. O cômodo era iluminado pela parca luz que
ultrapassava a janela.
-Não tem ninguém, Lucas!
-Mas eu vi! Passou na minha
frente – O menino pulou para cima da cama do irmão.
-E para onde ele foi?
-Entrou no quartinho das
bugigangas.
Rafael saltou para fora do
beliche e foi até o quartinho de bugigangas. Esse era o pequeno espaço onde os
irmãos jogavam os seus pertences quando estavam com preguiça de organizá-los.
-Cuidado Rafa! – Sussurrou Lucas.
O rapaz abriu a porta do quartinho:
Somente a bagunça orquestrada por seu irmão e ele.
-Nada! – Avisou Rafael voltando
para o beliche – Você teve um pesadelo – E começou a empurrar Lucas para que o
menino voltasse para a cama debaixo.
-Eu juro que vi! E ele tinha uma
cauda!
-Uma cauda?
-Isso. Igual a um gato – Luquinha
encolheu-se.
-Foi um pesadelo... Não passou
disso...
-Posso dormir contigo essa noite,
mano? Só esta noite.
-Pode sim – Respondeu Rafael após
um longo e impaciente suspiro. Deixou que Lucas deitasse no canto da parede e
ficou de olho no quarto. Podia até mesmo imaginar, tão nitidamente quanto na
palpável realidade, um homem com cauda de gato passando sorrateiramente pelo
quarto.
II
A sessão terror se dava todas as
sextas-feiras, a partir da meia-noite, no canal 13. Rafael, como bom apreciador
de filmes Trash, não perdia uma.
Ligava a TV do quarto em baixo volume e mergulhava no universo sobrenatural.
Lucas era proibido pelos pais de ver aos filmes, mas por vezes, fingindo
dormir, os assistia em segredo. Rafael percebia, fingindo não notar.
Por volta de metade do primeiro
filme apresentando, “A ilha da insônia”, Rafael, que havia deixado a porta do
quarto aberta, viu, de relance, um vulto passar, rápido, pelo corredor.
Levantou-se, com o coração aos pulos.
-O que se esconde aqui? – Perguntou o protagonista do filme.
Rafael irrompeu no corredor
esperando se deparar com qualquer coisa: Uma vez mais nada viu. O vulto fora na
direção da cozinha. Na certa era seu pai ou sua mãe.
-Mãe? Pai? – o rapaz chamou - Foi
um de vocês que passou agora no corredor?
Do quarto do casal, com a porta
fechada, veio a voz sonolenta e impaciente da mãe:
-Estamos dormindo Rafael!
-Eu... Vi alguém passar...
-Que alguém que nada! –
Prosseguiu a mãe que nem sequer se deu ao trabalho de levantar – O sono e os
filmes de terror estão te fazendo ver coisas!
Vá se deitar!
O filho pediu desculpas e fechou
a porta do quarto. Não queria mais ver o corredor.
-Seja o que for – um médico
explicava ao mocinho do filme – não é humano.
Rafael desligou a TV e se deitou.
No escuro, ouviu a voz do irmão:
-Você o viu, não é? Viu ele...
-O sono nos faz ver coisas, Luquinha. Boa noite.
Fosse o que fosse que passou pelo
corredor, Rafael estava certo de que tinha uma... Cauda, que serpenteava no ar.
III
A Biblioteca Pública de Pinheiros
estava praticamente vazia naquela manhã. A maioria das pessoas decerto preferia
fazer pesquisas no conforto de seus lares, na Internet. Rafael bem que havia
tentado, mas a busca fora infrutífera.
-Tem coisas que você só encontra
nos livros – explicou a bibliotecária ao ouvir o relato de Rafael a respeito de
suas dificuldades de pesquisa. Logo, ela voltava com três tomos, grandes,
capa-dura, recheados de páginas amareladas – Esse material é para um trabalho
de escola? – A mulher questionou desconfiada.
-É sim...
Foi no segundo livro, “Mitos e
lendas demoníacas”, que, após longa procura, o rapaz encontrou a “criatura” que
batia com o que seu irmão e ele tinham visto.
“Ajudantes de Satã, também
conhecidos por Auxiliares de Lúcifer ou Caudas do Diabo. Segundo a lenda,
entram em casas durante a noite para raptar crianças e carregá-las para os
domínios infernais. Na ausência das crianças (a alegria dos pais), o demônio
consegue chegar aos adultos.”
Acima do texto, a ilustração de
um horrendo homem, quase esquelético, nu, curvado, unhas cumpridas, cabelos
negros pelos ombros, e com uma cauda, semelhante à de um felino, felpuda, mas
com um par de longos espinhos na ponta.
O rapaz fechou o livro e partiu
para a escola.
IV
Chegando em casa, Rafael pensou muito
a respeito de se deveria ou não contar aos pais a respeito das “visões” que Lucas e ele vinham tendo.
Temendo que não o levassem a sério (e responsabilizassem os tão adorados filmes
Trash), achou melhor não fazê-lo.
Quando se deitou, o preocupado e
assustado rapaz imaginou que não conseguiria dormir. Era muito nítida, em sua
mente, a gravura da cria infernal daquele livro. Para Rafael, o sono tardou,
mas chegou.
Acordou com os berros do irmão.
-Mano! Socorro! – Debatia-se
Luquinha enquanto a Cauda do diabo o arrastava em direção ao quartinho de
bugigangas.
Rafael saltou do beliche e
lançou-se contra a demoníaca criatura que, surpreendida pelo ataque, acabou
largando Lucas.
Os pais, acordando com os gritos
de Lucas e os ruídos do embate, tentavam, do corredor, entrar no quarto dos
meninos, mas, para aumento do desespero paternal, a porta fora trancada pelo
lado de dentro.
-Luquinha! Rafa! – A mãe estava histérica
– O que está havendo?
Um grito, sobrenatural, infernal,
se espalhou por toda a casa. Findado o eco, tudo o que restou foi o silêncio da
madrugada.
Quando a porta finalmente foi
arrombada, e as luzes acesas, os pais das crianças se viram diante da seguinte
cena: O quarto todo revirado, Lucas, em um canto, encolhido no chão, chorando e,
no outro lado, Rafael, ofegante, segurando o que parecia ser uma corda.
-Eu o impedi! – Rafael berrou – Ele
fugiu... – apontou a porta entreaberta do quartinho de bugigangas – Mas
arranquei a sua cauda!
Repentinamente, o prêmio da
contenda, a cauda, virou uma cobra coral, se enroscou no braço de Rafael e o
picou.
O garoto tombou.
E a cauda do diabo saiu vitoriosa.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
O admirador secreto
Continho vencedor do 1º Concurso de Contos Casa do Escritor - categoria acima de 24 anos.
Bernardo por semanas a fio enviou
flores, caixas de bombom e cartas românticas e inspiradas à sua vizinha,
Lucinda, por quem estava perdidamente apaixonado. Como era um sujeito tímido, o
tal Bernardo acabou fazendo uso da antiga brincadeira do admirador secreto.
Nada como um pouco de mistério para despertar uma paixão! O pretendente foi tão
convincente em seu papel de “secreto”, que chegou a usar outro número de
celular para trocar mensagens com Lucinda.
Combinaram de se encontrar em um
Shopping. A moça, ansiosa que estava, chegou bem antes do horário programado.
Bernardo, coração aos pulos, apareceu, trajando sua melhor roupa, trazendo nas
mãos trêmulas um belo e enorme buquê. Lucinda mostrou-se surpresa ao vê-lo.
-Que faz aqui? – Questionou a moça –
Também veio para um encontro?
Bernardo, diante de sua paixão,
acovardou-se vergonhosamente.
-Sim. Marquei com uma moça que conheci
estes dias... – mentiu o admirador.
-E eu finalmente vou conhecer o meu
admirador secreto! – Lucinda não escondeu o sorriso.
-Nossa! Que coisa mais antiquada isso de
“admirador secreto”! – O rapaz fez cara de desfeita.
-Pois eu acho super-romântico! – Só faltou
à admirada suspirar – Acho que ele está atrasado... – Consultou o pequeno
relógio no pulso.
-É mesmo! – Bernardo disfarçou, olhando
para todos os lados – A minha companhia também ainda não chegou – Ele não sabia
mais onde metia a cara. Temia que Lucinda descobrisse a sua “identidade”.
Talvez o próprio nervosismo o entregasse...
Ficaram esperando, em silêncio, por um
longo tempo.
-Acho que levei um bolo – Lucinda
abaixou a cabeça e começou a revirar o interior da bolsa que trazia no ombro
direito – Vou mandar uma mensagem perguntando onde ele está! – Tomou o celular.
-Nada disso! – Bernardo a impediu – Se
ele não aparece, é ele quem sai perdendo. Você não pode se humilhar – Aquela
tática TINHA que dar certo, caso contrário, o celular em seu bolso tocaria no
exato momento em que Lucinda enviasse a mensagem – Ainda mais se humilhar para
um estranho!
-É admirador secreto, não admirador
desconhecido – Explicou a garota – Pode ser alguém próximo a mim.
-Duvido! Se fosse alguém que você
conhece, falaria contigo de uma vez, não faria este teatro todo – Fez uma
expressão desaprovadora – EU faria isso...
-É... Pode ser... – Lucinda sorriu –
Acho que você também levou um bolo...
-Pois é... Que coincidência... Bem, o
que acha de aproveitar que estamos aqui e inventarmos alguma coisa?
-Eu topo!
Bernardo entregou-lhe o buquê e saíram
de braços dados. Formavam, afinal, um belo casal. O rapaz pensava consigo que
se tivesse feito diferente, se revelando, as coisas não sairiam tão perfeitas.
Pobre do sujeito que acha que pode
mentir ou esconder os seus sentimentos de uma mulher: Enquanto o homem dá dois
passos, a mulher já tem percorrido a trilha inteira.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Os segredos e o tempo
Conto a ser publicado na antologia "Se todos fossem iguais á você..." da Câmara Brasileira de Jovens escritores.
Embora aquela tivesse sido uma
boa relação e sempre tivessem se dado muito bem, ele lhe escondera um grande segredo:
Era ela a causadora de sua
insônia durante todo aquele longo (e ido) período de tempo.
Sim... Lembrava muito bem da
época em que dividiam uma mesma cama. Ficava praticamente a noite inteira
procurando encontrar uma boa posição que facilitasse a chegada do sono, sempre evitando
olhá-la, pois era exatamente isso que o impedia de dormir: Uma vez que seus
olhos cruzassem com a serenidade daquele lindo rosto, sua atenção estaria
totalmente capturada, concentrada e imersa na beleza daquelas delicadas linhas
faciais, na leve movimentação das narinas que acompanhavam a doce respiração, no
jeito como as unhas compridas, bem cuidadas, e quase sempre descoloridas,
frequentemente vinham a coçar o mesmo e exato ponto do queixo.
Era um dos muitos hábitos
(manias?) dela o de dormir de lado, trazendo as mãos entreabertas próximas ao
peito, virada para a direção dele! Era, assim, portanto, atraído, fisgado.
Olhando-a, era-lhe simplesmente impossível dormir. Mas como não olhá-la? Até
mesmo quando seus olhos se encontravam fechados, clamava por aquela visão.
Constantemente na escuridão a procurá-la.
Certas madrugadas eles passavam
abraçados no sofá diante da TV ligada. Ela dormia. Ele, colado às costas dela,
com a cabeça recostada sobre aquele frágil pescoço, sentia o cheiro. Não do
perfume que dificilmente ela usava. O cheiro do corpo dela. Era nesse momento
ele a abraçava mais forte e beijava de leve a sua face.
Quando ela tinha sonhos ou
pesadelos, ele acompanhava suas reações ante aqueles dois extremos: Breves
sorrisos, expressões profundas de alegria, longos desesperos, mergulhos na mais
pura agonia. E era nestas horas que ele sempre roçava de leve a sua mão
buscando, de alguma forma, usufruir um pouco daqueles bons momentos oníricos ou,
então, tentando tranquilizá-la no absoluto terror.
Poderia passar a noite inteira,
parado, olhando-a. E foram muitas as vezes em que o fez.
E quando, no meio da madrugada,
ela murmurava palavras incompreensíveis, ou então desconexas, ele imaginava que
era seu nome que ela chamava. Que em seus sonhos era com ele que ela estava.
Que todo o amor que por ele sentia ela declarava.
Às vezes não resistia e passava a
mão por seus longos cabelos. Noutras alisava seu rosto, acompanhando,
calmamente, cada linha. E quando terminava o ritual, o repetia mais uma vez. E
outra. E outra... Perdia-se naquela face. E se fosse possível, se tivesse
havido uma noite eterna, se perderia definitiva e infinitamente. Adorava
acariciar seu rosto. E ela não acordava com o seu toque. Tinha o sono profundo.
Não fingia. Não. Ele tinha certeza: A razão de sua insônia profundamente
dormia. Inocente (e como e porque não?), ela não tinha noção do grave dano que
ao sono de seu companheiro causava e o quanto, apenas por suprir a básica
necessidade de dormir, o afligia.
Nas noites frias, ele a abraçava
e por ela era abraçado. Via, nestas ocasiões, aquele rosto ainda mais de perto,
por vezes quase colado ao seu, noutras em seu peito encostado. E maior era o seu
martírio. Sentia o calor leve que daquele corpo emanava e então a tentação
vinha mais forte do que nunca. Mas não ousava interromper aquele momento
sagrado. Embora muito quisesse, não procurava o seu toque, as suas carícias, o
seu suor, o seu sexo. Não enquanto dormisse. Não poderia e nem conseguiria
voluntariamente acordá-la.
E nas raras vezes (e nos curtos
períodos de tempo) em que conseguia dormir, ele tinha sonhos, todas as suas
palavras, murmuradas, eram compreensíveis, tinham sentido: o nome dela ele
chamava, era com ela que ele estava e todo o seu amor por ela ele declarava.
Aquele era o segredo: aquela moça
era a causadora da sua insônia. E mesmo passado tanto tempo, ainda o era. A
diferença é que antes ele não conseguia dormir por tê-la ao seu lado e agora
não pregava os olhos por não mais tê-la.
Mas havia outro segredo.
Ainda mais secreto.
Ele a amara.
E ainda a ama.
E todas as noites ora para ter novamente,
ao menos apenas mais uma vez, aquele martírio, em sua cama.
Uma pena ele ter escondido, sob
uma camada fina e levemente ofensiva de indiferença, toda a intensidade dos seus
sentimentos.
Triste é a sina de certos
segredos: Quando não revelados no momento propício, passada a devida
oportunidade, estão ultrapassados, fadados á insignificância, ao esquecimento,
e, uma vez enterrados, se perdem no tempo.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Antologias Andross Editora
Antologias da Andross Editora das quais participarei.
Lançamento para o dia 19 próximo, durante o evento "Livros em Pauta" em São Paulo.
Amores (Im)possíveis com o conto "O homem que não queria morrer".
Edição de Edson Rossato, organização de Leandro Schulai.
SINOPSE: Todos procuram um amor. Todos mesmo. Até os vilões, afinal, não existe amor ruim. Mas será que todos os amores são possíveis? Amores (im)possíveis traz a essência do amor em diversos contos, que retratam a alegria da conquista, o desespero da perda, o prazer em ser correspondido, a angústia em ser rejeitado... Afinal, existe sentimento mais controverso do que o amor?
AUTORES: André Kuhn — André Silva — Andre Tiago — Beatriz Avanso — Ben Oliveira — Bianca Maia — Carla Adrielle — Claudio Moraisito — Daisy Duarte — Davi Paiva — Denise Beliato — Doug Pereira — Dryh Meira — Edriane Roseno — Erick Freire — Evelin Barboza — Evelyn Postali — Fabrício Rufino — Felix Alba — Irineu Albuquerque — Isa Aragão — J.R.R. Santos — Jadson L. Ribeiro — Jariane Ribeiro — Jonatas Rubens Tavares — JP Tarcio Jr. — Julio C. Vieira — Lara Luft — Larissa Siriani — Leandro Schulai — Lina Stefanie — Lívia Fiedler — Lu Days — Ludmila Monteiro — Luiz Carlos Dias — Mairton Costa — Marcele Cambeses — Marcos Monjardim — Maria Carolina Araujo — Maria José C. de Oliveira — Max Fischer — Michelle S. Rocha — Moisés Suhet — Murillo Melo — Nayana Feitosa Lacerda Canuto — Nayara Fontenele — Patricia F. — Paulo Xavier — Pedro Otávio — Priscila Dritty — Rainer Pompermayer — Ricardo Biazotto — Rodrigo N. de Oliveira — Rosilene Siepamann — Sandro Honorato — Sirley Gomes — T.R.S. Amorim — Thais Pampado — Thaís Santos — Tiago Almeida — Vitor Emmanuell — Wilgner Murillo Santos — Yume Vy
Mentes Inquietas com o conto "O homem que não se arrependia de ter desafiado o diabo".
Edição de Edson Rossato, organização de Alfer Medeiros.
SINOPSE: Mary Shelley
tinha pesadelos com a ideia de ressuscitar mortos... Lovecraft sentia-se
perseguido por entidades anti-humanas... Edgar Allan Poe era fascinado por
felinos e pássaros negros... As melhores histórias sobrenaturais, de suspense e
de terror de todos os tempos surgiram das mentes mais inquietas que a
literatura universal já conheceu. Agora, uma nova safra de escritores impõe ao
papel toda a angústia de suas mentes, em tramas que mesclam o fantástico à
loucura, o possível ao inimaginável, a penumbra ao medo... Se é horror que você
procura, veio ao lugar certo: o subconsciente humano.
AUTORES: Aislan Coulter — Ana F. Cruchello — Ben Oliveira — Cami L. A. Castro — Davi Paiva — Doug Pereira — Duda Trichês — Eduardo B. Martins — Felix Alba — Giulia Alzuguir — Guilherme Matos — Hugo Sales — Johnathan Bertsch — Jonatas Rubens Tavares — Kaio Akrasan — Krayon C.G. — L. E. Haubert — Laura A. Dalmolin — Lily Silva — Lucas Machado — Lucas Rodrigues — Luiza Canto – Majola — Marcus de Bessa — Maria Júlia T. Montandon — Marina Gonçalves — Marjorie Pontes — Maurício Kanno — Nicole Siebel — Patrícia Fonseca — Raphael Malta — Regina Castro — Robert Trebor — Rosa Mattos — Samuel Medina — Simone Xavier — Sirley Gomes — Taiane Gonçalves Dias — Thais Pampado — Verônika Medeiros — Vitor Pereira Jr. — Wellington dos Santos Novaes — Wes Barros
AUTORES: Aislan Coulter — Ana F. Cruchello — Ben Oliveira — Cami L. A. Castro — Davi Paiva — Doug Pereira — Duda Trichês — Eduardo B. Martins — Felix Alba — Giulia Alzuguir — Guilherme Matos — Hugo Sales — Johnathan Bertsch — Jonatas Rubens Tavares — Kaio Akrasan — Krayon C.G. — L. E. Haubert — Laura A. Dalmolin — Lily Silva — Lucas Machado — Lucas Rodrigues — Luiza Canto – Majola — Marcus de Bessa — Maria Júlia T. Montandon — Marina Gonçalves — Marjorie Pontes — Maurício Kanno — Nicole Siebel — Patrícia Fonseca — Raphael Malta — Regina Castro — Robert Trebor — Rosa Mattos — Samuel Medina — Simone Xavier — Sirley Gomes — Taiane Gonçalves Dias — Thais Pampado — Verônika Medeiros — Vitor Pereira Jr. — Wellington dos Santos Novaes — Wes Barros
Livre para voar com o conto "Firme".
Edição de Edson Rossato, organização de Helena Gomes e Carla Yanagiura.
SINOPSE: Escrever é
soltar as amarras que prendem a criatividade. Palavras escritas em uma folha de
papel tornam-se cada vez mais leves e flutuam até ganharem o céu, rumo ao
infinito. E aqueles que têm a ousadia de compor histórias com a liberdade que a
literatura lhes permite nunca terão suas mentes encarceradas. Serão sempre
livres para voar.
AUTORES: Aglaé Torres — Alexsandro Menegueli — Aline G. Alhadas
— Anna Barbosa — Camilla Soto — Caroline Policarpo Veloso — Clarissa Roldi —
Danielle Meniche — Davi Paiva — Evelyn Postali — Felipe Cantarelli – Flommar —
Gabriel Messias – Gilborne — Gládiston de Souza — Glenn Von Beat — Jonatas
Rubens Tavares — Kássio Nunes — L. E. Haubert — Lara Luft — Lauane Souza —
Letícia Zampiêr — Lucas Janini — Lucas Marchette — Lucien Adedo — Lya Gallavote
— Maciel Brognoli — Magnus Langbecker — Márcia Alcântara — Mayara Sousa —
Miguel Nenevé — Milena M. — Murray Jordan — Nayara Fontenele — O. A. Secatto —
Rafael Machado Costa — Raphael Cardoso — Ricardo R. Gitti — Robert Trebor —
Tatiana Satake — Tiago France — Vitor Pereira Jr. — Vivian Albuquerque —
William Wagner Westphal
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Qual será o seu nome?
Todos os dias
ele ia à panificadora pensando em vê-la.
Era
linda.
Muito
linda.
Perfeita,
poderia dizer.
Estava
apaixonado. Era platônico, os mais realistas e críticos alegariam, mas e daí?
Era paixão! Estava apaixonado!
Maldita
a hora em que ela aparecera! Tudo estava tão bem antes dela... Tomava o café
tranquilamente e seu dia corria sem preocupações ou ansiedades... Agora, vê-la
era uma necessidade. Ansiava extremamente angustiado por isto. Poderia dividir
sua vida em AD / DD – Antes Dela e Depois Dela.
Qual
será o seu nome? – Ele se perguntava, imaginando mil e um nomes que nunca se
encaixavam perfeitamente com o rosto maravilhoso e o gracioso jeito de ser da
donzela.
Não
tardou para que ela o percebesse. Não havia como não notá-lo: O pobre diabo ficava
visivelmente desconcertado ante a sua aproximação.
Amanhã chego perto dela – Ele pensava consigo – Não, faço melhor! Amanhã eu peço
licença e me sento junto a ela. Conversamos e fazemos amizade. Logo, posso
convidá-la para sair. Posso ser um sujeito apaixonante quando quero. Posso ser
mesmo. Tipo, artista de cinema ou galã de novela. Posso sim!
Acontece
que o nosso romântico herói não tinha lá muita coragem de se aproximar da
adorável pequena.
Amanhã
– Calculava – Amanhã!
E
nisto, foram-se muitos dias, muitos amanhãs tornaram-se ontem e, finalmente,
chegou a manhã em que a moça não apareceu.
Amanhã
ela virá – Pensou.
E
não veio.
Pode
estar doente – Concluiu.
E
a demora se estendeu.
Ela
está de férias do trabalho – Supôs.
Mas
a moça nunca mais apareceu, e o nosso galante pretendente ficou a se perguntar:
Qual
era o seu nome?
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