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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Esta casa tem... (Ou "A horrível, perturbadora e interminável fonte de horrores")

Conto poetizado sobre o mal

Deterioração da mente sobre a matéria, de Otto Rapp

Um jovem fez uma aposta com amigos: Adentrar uma casa que, segundo rezava a lenda, era mal assombrada.
Desde então nunca mais o viram.
Diante da porta do sinistro casarão foi encontrado, assinado pelo desaparecido, o seguinte escrito:

Esta casa tem...
Companhia na solidão.
Uma presença no porão.
O ressoar de uma maldição.
O ladrar persistente de um cão.
Os constantes estrondos do trovão.

Vozes caladas.
Pessoas peladas.
Línguas arrancadas.
Almas condenadas.
Outras desencarnadas.
Ecos em salas abarrotadas.
Pessoas idosas sendo torturadas.
Arrepiantes e inesperadas gargalhadas.

Doces salgados.
Fetos abortados.
Loucos embriagados.
Leitores incomodados.
Cômodos desocupados.
Bonecos de vodu costurados.
Criminosos há muito procurados.
Passagens de vultos intercalados.
Órgãos reprodutores amputados.
Preservativos sujos reaproveitados.

Coisas cabeludas.
Aberrações fecundas.
Miados de crias felpudas.
O gritar de pessoas mudas.
Portas abertas por mãos peludas.
Espelhos refletindo coisas absurdas.
Carcaças dilaceradas por garras imundas.

Furo na veia aorta.
Frutos podres na horta.
Gente que não se importa.
Pessoa que não se comporta.
O trabalhar da lâmina que corta.
Fulana caminhando mesmo após morta.
Campainha tocando sem ninguém à porta.
Mordomo estranho de voz grossa e boca torta.
Pessoas tentando desviar a atenção do que importa.

A serpente e seu mérito.
Escarros pendurados no teto.
Um sentimento ruim sempre perto.
Corredores repletos de vômito fétido.
O caminhar de um corpo totalmente gélido.
A morte executando um movimento intrépido.
O gargalhar de alguém completamente histérico.

Crianças chorando no banheiro.
Vozes sussurrando o tempo inteiro.
Lâmina ensanguentada de barbeiro.
Mãos saindo de dentro do travesseiro.
Um maníaco com uma faca, sorrateiro.
Mulheres escandalosas fugidas de um puteiro.
Alguém falando em estranho idioma estrangeiro.

Indivíduos muito mal intencionados.
Espíritos barulhentos, mal educados.
Quartos supostamente desocupados.
Homens falando sozinhos, impressionados.
Vermes rastejantes por espetos trespassados.
Quartos mal iluminados, muitos deles assombrados.
Sujeitos bem acompanhados, mas muitos deles calados.
Um espírito atormentado atormentando inquilinos desequilibrados.
E um anfitrião invisível e muito, muito perturbador, trazendo a vida a seres inanimados.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Corporal



Sofro.
Sofro sim.
Sofro muito.
Mas meu sofrimento...
O meu sofrimento é mera e unicamente corporal.
Meus braços queixam-se, compreensivelmente, por ser movimentados para outra atividade que não seja segurar-te. Abraçar-te.
Minhas mãos e os meus dedos estão profundamente frustrados por não poderem contornar, estudando, demoradamente, cada linha harmoniosa do teu gracioso rosto.
As minhas pernas e os meus pés estão revoltados, pois minhas caminhadas já não mais os levam até ti. E deixaram claro que por mais distante, árduo e sôfrego que seja o trajeto, o completariam com prazer para realizarem este nosso reencontro.
O meu peito clama, dolorosamente, todas as santas noites insones, pelo recostar e repousar da tua cabeça. Espera poder novamente aninhar-te.
Os meus cabelos, pobres coitados, exigem, ao menos uma vez mais a delícia de por ti serem tocados, percorridos e alisados.
Meus ouvidos se entristecem somente em rememorar o fato de que já não irão mais ouvir a tua doce voz, que a eles tão bem fazia.
Meu nariz fareja, constantemente, onde quer que esteja, na esperança vã de captar um resquício da tua acalentadora fragrância natural. Do teu maravilhoso perfume.
Os meus olhos... Ah, os meus olhos! De tão fiéis a ti, fizeram greve por tempo indeterminado. Alegando causa inegociável, eles se recusam a abrir, a não ser que seja na tua presença. Choram inesperada e constantemente a tua ausência.
Os meus lábios movimentam-se sem vontade, certos de que as minhas palavras não chegarão até você. E não são raras as vezes em que os flagro pronunciando, baixinho, com saudades, o teu belo nome.
O meu cérebro, dono de uma memória infalível, insiste em me levar em um passeio nostálgico pelos momentos maravilhosos que contigo compartilhei. Nele, só existe você, você e você. Trata-se de um espaço, de um altar, de pureza, tributo e adoração eternos.
E o meu coração... O meu coração, no cumprimento leal das obrigações de suas funções, bate fraco, descompassado, triste. Repleto de amor, não quer ser entregue a outra pessoa que não seja a você.


Continho anteriormente publicado no Recanto das Letras

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Sopro


Fazia já bastante tempo que não havia quem a viesse visitar. Fazia bastante tempo, também, que não havia quem ela visitasse. Todos a quem conhecera, amados, odiados, queridos, indesejados, se haviam ido, soprados definitivamente da existência por aquela força milenar, incompreensível, irresistível e inevitável, a que a velha chamava de Fim. Mas ainda assim a velha prosseguia. A lenha que a mantinha aquecida era o passado. Seu combustível era uma mescla de lembranças e de saudades.
E pensava nisso quando se deu conta de que lá fora tudo era silêncio. O mundo emudecera.
Uma fumegante xícara de chá depositada sobre a mesa de centro permanecia intocada. As cortinas da janela da sala começaram a ser sopradas por uma delicada brisa; brisa esta que trazia para o interior da casa o cheiro puro e deliciosamente adocicado e primaveril das flores do jardim. A velha largou a bengala e ouviu o som oco e ecoante que o instrumento fez ao chocar-se contra o assoalho atapetado. Os ponteiros do relógio na parede pareceram mover-se cada vez mais vagarosamente, até cessarem por completo seu costumeiramente ininterruptível trabalhar.
A velha agarrou-se aos braços da poltrona como um náufrago se agarra aos destroços de um navio. Teve medo porque sabia que era o Fim que chegava. Mas, repentinamente, permitiu-se relaxar. Morreria sozinha, mas seu corpo poderia se despedir da vida, decompor-se, no silêncio, longe da tristeza dos vãos ritos funerários.
O que todos temiam era o mistério do Fim, mas essa brisa sobre ela já estava soprando.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Prévia de "A Cura"

Minha noveleta, A Cura, editada pela Navras, está disponível para venda, em formato e-book, na Amazon. Quem tiver um Kindle, ou o aplicativo instalado no computador ou celular, poderá comprá-la ou então baixar a prévia (amostra grátis) no canto direito da tela - Acesso Aqui .

Em "A Cura", o jovem Piêro segue em uma existência sem rumo até que descobre o amor, e, com ele, um dom que traz sentido a sua vida. A trama versa sobre a inevitabilidade do destino e no quanto podemos fazer a diferença na vida daqueles que nos circundam.

Como bônus, o e-book traz o pequeno "Evelin, os Anjinhos e a Dor", que mostra a história de uma pequena psicopata e sua perturbadora visão do mundo. Este conto compõe a antologia conjunta "Pequenos Demônios", também da Navras (no prelo).

A compra de "A Cura" dá direito a participação na "Batalha dos e-books", onde o leitor concorre a um Kindle Wifi + 5 livros + 50 marcadores. Mais detalhes Aqui .

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Quando o trem partiu


A viagem naquela tarde prosseguiu normalmente até que bateram à porta da cabine da máquina.
-Abra Misael... – Era a voz do bilheteiro que apelava ao condutor – Pelo amor de Deus, abra essa porta!
Assim que a cabine foi aberta, o maquinista viu-se diante da seguinte cena: O bilheteiro rendido por dois mascarados que o aterrorizavam com uma pistola em cada têmpora.
-Pare o trem, homem! – Ordenou um dos mascarados, fazendo pontaria no peito de Misael – Se fizer tudo certo, ninguém morre hoje.
Como o condutor vacilasse, o bandido tratou de explicar:
-Temos quase uma dúzia de homens aqui dentro. Todos os vagões estão tomados, todos os passageiros dominados. Não vai querer nenhuma morte em sua consciência, não é mesmo?
Misael freou o trem e ficou aguardando as instruções dos criminosos. A partir deste ponto, aquele que mirava a cabeça do bilheteiro passou a dar as cartas.
-Sejamos breves: Sabemos que um de seus passageiros carrega uma mala repleta de barras de ouro do tesouro nacional. O que ignoramos é a sua identidade. No entanto, temos a informação de que você, senhor maquinista, a conhece.
-Não faço ideia do que estão... – Mas Misael foi interrompido após receber uma forte coronhada, que o levou de encontro ao chão.
-Sem jogos, que a informação e o informante são quentes – O agressor grunhiu - Bem, temos duas opções para por um fim nisso: Ou você nos conta quem é o homem, e isso seria o jeito mais simples de resolver a questão, ou nós matamos você e o seu amiguinho aqui – apontou o bilheteiro – e revistamos todas as bagagens da composição, apagando quantos passageiros forem necessários para encontrar o que procuramos.
-E vocês não querem perder tempo na busca porque estamos próximos da estação seguinte e os federais não demorariam a vir assim que notassem a demora – Concluiu o maquinista, ainda zonzo pela pancada recebida.
-Exato – O bandido coçou o rosto sob a máscara – E então, o que vai ser?
-O passageiro está na cabine dezoito – revelou Misael pesaroso - Emanuel González. Este é o homem que vocês querem.
-Sábia decisão, muchacho! – O criminoso gargalhou.
O maquinista e o bilheteiro foram, então, amarrados de costas um para o outro. Assim que os dois mascarados se afastaram da cabine, o bilheteiro murmurou:
-Então essa é a saída que encontraram para evitar os assaltos, é? Os agentes do tesouro vão querer o teu couro por essa, Misael.
-Tenho esposa e um menino adoentado em casa, filho – O condutor suspirou – Morrer é um luxo o qual não posso usufruir. Danem-se os agentes e o maldito tesouro!
-Esses bandidos de uma figa se portaram como passageiros a viagem inteira! – Queixou-se o bilheteiro, pensativo – Decerto que na hora de entrar apresentaram nomes falsos.
-É provável – Misael concordou.
-Será o bando dos irmãos Gun? Aqueles dois que nos amarraram tinham até as vozes parecidas – Refletiu o bilheteiro, ao que o amigo de trabalho pareceu não dar ouvidos.
Repentinamente, uma série de tiros ecoou. Por longos minutos o mundo pareceu emudecer. Logo, um dos passageiros chegava à cabine. Enquanto soltava os dois funcionários do trem, relatou:
-Os criminosos crivaram de balas um dos passageiros da cabine dezoito e levaram sua bagagem.
-Ele reagiu? – o bilheteiro questionou.
-Pareceu que não – Respondeu o passageiro, ainda desatando as cordas.
-Meu Deus! Mataram o homem em vão! – Exclamou o maquinista.
-Não sei se foi bem assim – agora o homem terminava com as cordas – Eles o agradeceram por uma “dica”.
-Então o próprio agente era o delator! – Concluiu o bilheteiro – Mas qual era o objetivo daquela cena toda aqui na cabine?
-Só poderia se tratar de um plano para inocentar o homem da “dica” – Deduziu Misael - Mas na última hora os criminosos parecem ter optado por eliminá-lo, tendo, assim, um elemento a menos com quem dividir o pacote – voltou-se para o seu libertador – E os bandidos já se foram?
-Sim. Homens a cavalo os esperavam lá fora.
O maquinista olhou pela janela da cabine e pôde ver o trotar dos animais erguendo poeirão lá longe no desértico cenário cujo fim os olhos perdiam.

Quando o trem partiu, o maquinista se permitiu sorrir aliviado: O agente assassinado passara por delator e em breve Misael Júnior teria os remédios de que tão precisava.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Cura

Minha noveleta, "A Cura", está a venda na Amazon (acesso  AQUI ) em formato e-book. Editora: Navras. Editor: Gustavo Gonçalves.

Sinopse: 

"-É destino sim, Piêro. Está claro como a luz do dia. Mas não faça como muitos que se sentem impelidos a fazer algo e, por temor, mera covardia, não o fazem. É destino mesmo... Então se mostre a altura do que praticamente você foi incumbido e abrace a sua sina".
Sem rumo ou objetivo, Piêro utiliza-se da pureza do amor para moldar o próprio destino e fazer a diferença na vida daqueles que o circundam. Mas ele descobrirá que tudo tem um preço, até mesmo a bondade.

O bônus a que a capa se refere é o conto "Evelin, os anjinhos e a dor", que faz parte da antologia "Pequenos demônios", também da Editora Navras.

domingo, 16 de março de 2014

Antologia Sombrias Escrituras Vol. 2

Acabou de ser lançada a antologia Sombrias Escrituras Vol. 2. Composta por quinze contos e vinte e quatro poemas, a obra é dedicada ao goticismo, horror e terror. Organizada pelo Sr. Arcano , a coletânea é uma iniciativa do site Sombrias Escrituras , sendo publicada pela Editora Literata .
Participo do livro com o conto "Clarice e Tobias".
 
Lista dos autores participantes e suas respectivas obras:
 
Graziela Fusco Ramos (com o conto: "Fullhouse"); Eliane Verica (com o conto: "O couro do enforcado"); Carlos Santhos (com  conto: "Uma visão do caos"); Igor Fernando (com o conto: "Morte, perfume e afins"); Douglas Briganti (com o conto: "A poça"); Thiago Roncada (com o conto: "O espantalho"); Igor Rangel (com o conto: "O passageiro das 21h"); Carla Witch Princes (com o conto: "A vampira medieval" e com o poema: "Anoitecer"); Thiago Lucarini (com o conto: "O relógio do demônio da morte"); Jonatas Rubens Tavares (com o conto: "Clarice e Tobias"); Celso Carvalho (com o conto: "O caçador de vampiros"); Davi M. Gonzales (com o conto: "Parasita"); Élcio Guerra (com o conto: "Dictum Et Factum"); Mario Carneiro Jr. (convidado especial, com o conto: "O lençol"); Sr. Arcano (com o conto: "Texto assombrado" e com o poema: "Noite má"); Suzy M. Hekamiah (com o poema: "Melodia"); Edir Araújo (com o poema: "Aflição noturna"); Jairo Lopes (com o poema: "Breu"); Karin Carteri (com o poema: "Noite"); Karoline Costa (com o poema: "Dama gentil"); Ana Angélica Ferrazi (com o poema: "Dark angel"); Barata Cichetto (com o poema: "Serena"); Johnathan Bertsch (com o poema: "Carne viva"); Jhony Crusius (com o poema: "Nove pesadelos durante a noite"); Dani Uglione (com o poema: "Nessa noite a lua jaz em mim"); Vulto Escuro (com o poema: "Linda-Profana"); Geraldo Trombin (com o poema: "Quando ela caiu"); Edweine Loureiro (com o poema: "Irrequieta"); Orfeu Brocco (com o poema: "À meia-noite"); Maysa Lennox (com o poema: "Beijo noturno"); Hélio Flávio (com o poema: "Sonho funesto sob o fumo opaco"); Rodrigo Picon (com o poema: "À noite"); Rogerio Luz (com o poema: "Rumo à noite"); Theo Hursheine (com o poema: "Hora de dormir"); Sueli Aduan (com o poema: "Transitoriedade"); Aquino de Souza (com o poema: "Turno absoluto"); e Núbia Cavalcanti (com o poema: "Noite sem luar").
 
Vídeo de divulgação do livro:
 
 
Mais detalhes sobre a obra e os autores aqui . Interessados poderão adquiri-la aqui .
 
 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A cauda do diabo

 
Texto a ser publicado na antologia "Contos do outro mundo" da Câmara Brasileira de Jovens Escritores.
 
Naquela madrugada, Rafael foi desperto pelo irmão.
-Acorde Rafa! – Lucas chamava, cutucando desesperada e insistentemente o braço do adormecido – Por favor, acorde!
-O que há Luquinha? – Rafael encontrou o caçula dependurado sobre a sua cama do beliche.
-Um homem acabou de passar aqui!
Rafael estudou o quarto, cujos acessos estavam fechados. O cômodo era iluminado pela parca luz que ultrapassava a janela.
-Não tem ninguém, Lucas!
-Mas eu vi! Passou na minha frente – O menino pulou para cima da cama do irmão.
-E para onde ele foi?
-Entrou no quartinho das bugigangas.
Rafael saltou para fora do beliche e foi até o quartinho de bugigangas. Esse era o pequeno espaço onde os irmãos jogavam os seus pertences quando estavam com preguiça de organizá-los.
-Cuidado Rafa! – Sussurrou Lucas.
O rapaz abriu a porta do quartinho: Somente a bagunça orquestrada por seu irmão e ele.
-Nada! – Avisou Rafael voltando para o beliche – Você teve um pesadelo – E começou a empurrar Lucas para que o menino voltasse para a cama debaixo.
-Eu juro que vi! E ele tinha uma cauda!
-Uma cauda?
-Isso. Igual a um gato – Luquinha encolheu-se.
-Foi um pesadelo... Não passou disso...
-Posso dormir contigo essa noite, mano? Só esta noite.
-Pode sim – Respondeu Rafael após um longo e impaciente suspiro. Deixou que Lucas deitasse no canto da parede e ficou de olho no quarto. Podia até mesmo imaginar, tão nitidamente quanto na palpável realidade, um homem com cauda de gato passando sorrateiramente pelo quarto.
II
A sessão terror se dava todas as sextas-feiras, a partir da meia-noite, no canal 13. Rafael, como bom apreciador de filmes Trash, não perdia uma. Ligava a TV do quarto em baixo volume e mergulhava no universo sobrenatural. Lucas era proibido pelos pais de ver aos filmes, mas por vezes, fingindo dormir, os assistia em segredo. Rafael percebia, fingindo não notar.
Por volta de metade do primeiro filme apresentando, “A ilha da insônia”, Rafael, que havia deixado a porta do quarto aberta, viu, de relance, um vulto passar, rápido, pelo corredor. Levantou-se, com o coração aos pulos.
-O que se esconde aqui? – Perguntou o protagonista do filme.
Rafael irrompeu no corredor esperando se deparar com qualquer coisa: Uma vez mais nada viu. O vulto fora na direção da cozinha. Na certa era seu pai ou sua mãe.
-Mãe? Pai? – o rapaz chamou - Foi um de vocês que passou agora no corredor?
Do quarto do casal, com a porta fechada, veio a voz sonolenta e impaciente da mãe:
-Estamos dormindo Rafael!
-Eu... Vi alguém passar...
-Que alguém que nada! – Prosseguiu a mãe que nem sequer se deu ao trabalho de levantar – O sono e os filmes de terror estão te fazendo ver coisas! Vá se deitar!
O filho pediu desculpas e fechou a porta do quarto. Não queria mais ver o corredor.
-Seja o que for – um médico explicava ao mocinho do filme – não é humano.
Rafael desligou a TV e se deitou. No escuro, ouviu a voz do irmão:
-Você o viu, não é? Viu ele...
-O sono nos faz ver coisas, Luquinha. Boa noite.
Fosse o que fosse que passou pelo corredor, Rafael estava certo de que tinha uma... Cauda, que serpenteava no ar.
III
A Biblioteca Pública de Pinheiros estava praticamente vazia naquela manhã. A maioria das pessoas decerto preferia fazer pesquisas no conforto de seus lares, na Internet. Rafael bem que havia tentado, mas a busca fora infrutífera.
-Tem coisas que você só encontra nos livros – explicou a bibliotecária ao ouvir o relato de Rafael a respeito de suas dificuldades de pesquisa. Logo, ela voltava com três tomos, grandes, capa-dura, recheados de páginas amareladas – Esse material é para um trabalho de escola? – A mulher questionou desconfiada.
-É sim...
Foi no segundo livro, “Mitos e lendas demoníacas”, que, após longa procura, o rapaz encontrou a “criatura” que batia com o que seu irmão e ele tinham visto.
“Ajudantes de Satã, também conhecidos por Auxiliares de Lúcifer ou Caudas do Diabo. Segundo a lenda, entram em casas durante a noite para raptar crianças e carregá-las para os domínios infernais. Na ausência das crianças (a alegria dos pais), o demônio consegue chegar aos adultos.”
Acima do texto, a ilustração de um horrendo homem, quase esquelético, nu, curvado, unhas cumpridas, cabelos negros pelos ombros, e com uma cauda, semelhante à de um felino, felpuda, mas com um par de longos espinhos na ponta.
O rapaz fechou o livro e partiu para a escola.
IV
Chegando em casa, Rafael pensou muito a respeito de se deveria ou não contar aos pais a respeito das “visões” que Lucas e ele vinham tendo. Temendo que não o levassem a sério (e responsabilizassem os tão adorados filmes Trash), achou melhor não fazê-lo.
Quando se deitou, o preocupado e assustado rapaz imaginou que não conseguiria dormir. Era muito nítida, em sua mente, a gravura da cria infernal daquele livro. Para Rafael, o sono tardou, mas chegou.
Acordou com os berros do irmão.
-Mano! Socorro! – Debatia-se Luquinha enquanto a Cauda do diabo o arrastava em direção ao quartinho de bugigangas.
Rafael saltou do beliche e lançou-se contra a demoníaca criatura que, surpreendida pelo ataque, acabou largando Lucas.
Os pais, acordando com os gritos de Lucas e os ruídos do embate, tentavam, do corredor, entrar no quarto dos meninos, mas, para aumento do desespero paternal, a porta fora trancada pelo lado de dentro.
-Luquinha! Rafa! – A mãe estava histérica – O que está havendo?
Um grito, sobrenatural, infernal, se espalhou por toda a casa. Findado o eco, tudo o que restou foi o silêncio da madrugada.
Quando a porta finalmente foi arrombada, e as luzes acesas, os pais das crianças se viram diante da seguinte cena: O quarto todo revirado, Lucas, em um canto, encolhido no chão, chorando e, no outro lado, Rafael, ofegante, segurando o que parecia ser uma corda.
-Eu o impedi! – Rafael berrou – Ele fugiu... – apontou a porta entreaberta do quartinho de bugigangas – Mas arranquei a sua cauda!
Repentinamente, o prêmio da contenda, a cauda, virou uma cobra coral, se enroscou no braço de Rafael e o picou.
O garoto tombou.
         E a cauda do diabo saiu vitoriosa. 
 
 
 

 
 
 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O admirador secreto


Continho vencedor do 1º Concurso de Contos Casa do Escritor - categoria acima de 24 anos.

Bernardo por semanas a fio enviou flores, caixas de bombom e cartas românticas e inspiradas à sua vizinha, Lucinda, por quem estava perdidamente apaixonado. Como era um sujeito tímido, o tal Bernardo acabou fazendo uso da antiga brincadeira do admirador secreto. Nada como um pouco de mistério para despertar uma paixão! O pretendente foi tão convincente em seu papel de “secreto”, que chegou a usar outro número de celular para trocar mensagens com Lucinda.
Combinaram de se encontrar em um Shopping. A moça, ansiosa que estava, chegou bem antes do horário programado. Bernardo, coração aos pulos, apareceu, trajando sua melhor roupa, trazendo nas mãos trêmulas um belo e enorme buquê. Lucinda mostrou-se surpresa ao vê-lo.
-Que faz aqui? – Questionou a moça – Também veio para um encontro?
Bernardo, diante de sua paixão, acovardou-se vergonhosamente.
-Sim. Marquei com uma moça que conheci estes dias... – mentiu o admirador.
-E eu finalmente vou conhecer o meu admirador secreto! – Lucinda não escondeu o sorriso.
-Nossa! Que coisa mais antiquada isso de “admirador secreto”! – O rapaz fez cara de desfeita.
-Pois eu acho super-romântico! – Só faltou à admirada suspirar – Acho que ele está atrasado... – Consultou o pequeno relógio no pulso.
-É mesmo! – Bernardo disfarçou, olhando para todos os lados – A minha companhia também ainda não chegou – Ele não sabia mais onde metia a cara. Temia que Lucinda descobrisse a sua “identidade”. Talvez o próprio nervosismo o entregasse...
Ficaram esperando, em silêncio, por um longo tempo.
-Acho que levei um bolo – Lucinda abaixou a cabeça e começou a revirar o interior da bolsa que trazia no ombro direito – Vou mandar uma mensagem perguntando onde ele está! – Tomou o celular.
-Nada disso! – Bernardo a impediu – Se ele não aparece, é ele quem sai perdendo. Você não pode se humilhar – Aquela tática TINHA que dar certo, caso contrário, o celular em seu bolso tocaria no exato momento em que Lucinda enviasse a mensagem – Ainda mais se humilhar para um estranho!
-É admirador secreto, não admirador desconhecido – Explicou a garota – Pode ser alguém próximo a mim.
-Duvido! Se fosse alguém que você conhece, falaria contigo de uma vez, não faria este teatro todo – Fez uma expressão desaprovadora – EU faria isso...
-É... Pode ser... – Lucinda sorriu – Acho que você também levou um bolo...
-Pois é... Que coincidência... Bem, o que acha de aproveitar que estamos aqui e inventarmos alguma coisa?
-Eu topo!
Bernardo entregou-lhe o buquê e saíram de braços dados. Formavam, afinal, um belo casal. O rapaz pensava consigo que se tivesse feito diferente, se revelando, as coisas não sairiam tão perfeitas.
Pobre do sujeito que acha que pode mentir ou esconder os seus sentimentos de uma mulher: Enquanto o homem dá dois passos, a mulher já tem percorrido a trilha inteira.


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os segredos e o tempo


Conto a ser publicado na antologia "Se todos fossem iguais á você..." da Câmara Brasileira de Jovens escritores.

Embora aquela tivesse sido uma boa relação e sempre tivessem se dado muito bem, ele lhe escondera um grande segredo:
Era ela a causadora de sua insônia durante todo aquele longo (e ido) período de tempo.
Sim... Lembrava muito bem da época em que dividiam uma mesma cama. Ficava praticamente a noite inteira procurando encontrar uma boa posição que facilitasse a chegada do sono, sempre evitando olhá-la, pois era exatamente isso que o impedia de dormir: Uma vez que seus olhos cruzassem com a serenidade daquele lindo rosto, sua atenção estaria totalmente capturada, concentrada e imersa na beleza daquelas delicadas linhas faciais, na leve movimentação das narinas que acompanhavam a doce respiração, no jeito como as unhas compridas, bem cuidadas, e quase sempre descoloridas, frequentemente vinham a coçar o mesmo e exato ponto do queixo.
Era um dos muitos hábitos (manias?) dela o de dormir de lado, trazendo as mãos entreabertas próximas ao peito, virada para a direção dele! Era, assim, portanto, atraído, fisgado. Olhando-a, era-lhe simplesmente impossível dormir. Mas como não olhá-la? Até mesmo quando seus olhos se encontravam fechados, clamava por aquela visão. Constantemente na escuridão a procurá-la.
Certas madrugadas eles passavam abraçados no sofá diante da TV ligada. Ela dormia. Ele, colado às costas dela, com a cabeça recostada sobre aquele frágil pescoço, sentia o cheiro. Não do perfume que dificilmente ela usava. O cheiro do corpo dela. Era nesse momento ele a abraçava mais forte e beijava de leve a sua face.
Quando ela tinha sonhos ou pesadelos, ele acompanhava suas reações ante aqueles dois extremos: Breves sorrisos, expressões profundas de alegria, longos desesperos, mergulhos na mais pura agonia. E era nestas horas que ele sempre roçava de leve a sua mão buscando, de alguma forma, usufruir um pouco daqueles bons momentos oníricos ou, então, tentando tranquilizá-la no absoluto terror.
Poderia passar a noite inteira, parado, olhando-a. E foram muitas as vezes em que o fez.
E quando, no meio da madrugada, ela murmurava palavras incompreensíveis, ou então desconexas, ele imaginava que era seu nome que ela chamava. Que em seus sonhos era com ele que ela estava. Que todo o amor que por ele sentia ela declarava.
Às vezes não resistia e passava a mão por seus longos cabelos. Noutras alisava seu rosto, acompanhando, calmamente, cada linha. E quando terminava o ritual, o repetia mais uma vez. E outra. E outra... Perdia-se naquela face. E se fosse possível, se tivesse havido uma noite eterna, se perderia definitiva e infinitamente. Adorava acariciar seu rosto. E ela não acordava com o seu toque. Tinha o sono profundo. Não fingia. Não. Ele tinha certeza: A razão de sua insônia profundamente dormia. Inocente (e como e porque não?), ela não tinha noção do grave dano que ao sono de seu companheiro causava e o quanto, apenas por suprir a básica necessidade de dormir, o afligia.
Nas noites frias, ele a abraçava e por ela era abraçado. Via, nestas ocasiões, aquele rosto ainda mais de perto, por vezes quase colado ao seu, noutras em seu peito encostado. E maior era o seu martírio. Sentia o calor leve que daquele corpo emanava e então a tentação vinha mais forte do que nunca. Mas não ousava interromper aquele momento sagrado. Embora muito quisesse, não procurava o seu toque, as suas carícias, o seu suor, o seu sexo. Não enquanto dormisse. Não poderia e nem conseguiria voluntariamente acordá-la.
E nas raras vezes (e nos curtos períodos de tempo) em que conseguia dormir, ele tinha sonhos, todas as suas palavras, murmuradas, eram compreensíveis, tinham sentido: o nome dela ele chamava, era com ela que ele estava e todo o seu amor por ela ele declarava.
Aquele era o segredo: aquela moça era a causadora da sua insônia. E mesmo passado tanto tempo, ainda o era. A diferença é que antes ele não conseguia dormir por tê-la ao seu lado e agora não pregava os olhos por não mais tê-la.
Mas havia outro segredo.
Ainda mais secreto.
Ele a amara.
E ainda a ama.
E todas as noites ora para ter novamente, ao menos apenas mais uma vez, aquele martírio, em sua cama.
Uma pena ele ter escondido, sob uma camada fina e levemente ofensiva de indiferença, toda a intensidade dos seus sentimentos.
Triste é a sina de certos segredos: Quando não revelados no momento propício, passada a devida oportunidade, estão ultrapassados, fadados á insignificância, ao esquecimento, e, uma vez enterrados, se perdem no tempo.
 
 
 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Antologias Andross Editora

Antologias da Andross Editora das quais participarei.
Lançamento para o dia 19 próximo, durante o evento "Livros em Pauta" em São Paulo.


Amores (Im)possíveis com o conto "O homem que não queria morrer".
Edição de Edson Rossato, organização de Leandro Schulai. 
 


SINOPSE: Todos procuram um amor. Todos mesmo. Até os vilões, afinal, não existe amor ruim. Mas será que todos os amores são possíveis? Amores (im)possíveis traz a essência do amor em diversos contos, que retratam a alegria da conquista, o desespero da perda, o prazer em ser correspondido, a angústia em ser rejeitado... Afinal, existe sentimento mais controverso do que o amor?
AUTORES: André Kuhn — André Silva — Andre Tiago — Beatriz Avanso — Ben Oliveira — Bianca Maia — Carla Adrielle — Claudio Moraisito — Daisy Duarte — Davi Paiva — Denise Beliato — Doug Pereira — Dryh Meira — Edriane Roseno — Erick Freire — Evelin Barboza — Evelyn Postali — Fabrício Rufino — Felix Alba — Irineu Albuquerque — Isa Aragão — J.R.R. Santos — Jadson L. Ribeiro — Jariane Ribeiro — Jonatas Rubens Tavares — JP Tarcio Jr. — Julio C. Vieira — Lara Luft — Larissa Siriani — Leandro Schulai — Lina Stefanie — Lívia Fiedler — Lu Days — Ludmila Monteiro — Luiz Carlos Dias — Mairton Costa — Marcele Cambeses — Marcos Monjardim — Maria Carolina Araujo — Maria José C. de Oliveira — Max Fischer — Michelle S. Rocha — Moisés Suhet — Murillo Melo — Nayana Feitosa Lacerda Canuto — Nayara Fontenele — Patricia F. — Paulo Xavier — Pedro Otávio — Priscila Dritty — Rainer Pompermayer — Ricardo Biazotto — Rodrigo N. de Oliveira — Rosilene Siepamann — Sandro Honorato — Sirley Gomes — T.R.S. Amorim — Thais Pampado — Thaís Santos — Tiago Almeida — Vitor Emmanuell — Wilgner Murillo Santos — Yume Vy


Mentes Inquietas com o conto "O homem que não se arrependia de ter desafiado o diabo".
Edição de Edson Rossato, organização de Alfer Medeiros.



SINOPSE: Mary Shelley tinha pesadelos com a ideia de ressuscitar mortos... Lovecraft sentia-se perseguido por entidades anti-humanas... Edgar Allan Poe era fascinado por felinos e pássaros negros... As melhores histórias sobrenaturais, de suspense e de terror de todos os tempos surgiram das mentes mais inquietas que a literatura universal já conheceu. Agora, uma nova safra de escritores impõe ao papel toda a angústia de suas mentes, em tramas que mesclam o fantástico à loucura, o possível ao inimaginável, a penumbra ao medo... Se é horror que você procura, veio ao lugar certo: o subconsciente humano.
 
AUTORES: Aislan Coulter — Ana F. Cruchello — Ben Oliveira — Cami L. A. Castro — Davi Paiva — Doug Pereira — Duda Trichês — Eduardo B. Martins — Felix Alba — Giulia Alzuguir — Guilherme Matos — Hugo Sales — Johnathan Bertsch — Jonatas Rubens Tavares — Kaio Akrasan — Krayon C.G. — L. E. Haubert — Laura A. Dalmolin — Lily Silva — Lucas Machado — Lucas Rodrigues — Luiza Canto – Majola — Marcus de Bessa — Maria Júlia T. Montandon — Marina Gonçalves — Marjorie Pontes — Maurício Kanno — Nicole Siebel — Patrícia Fonseca — Raphael Malta — Regina Castro — Robert Trebor — Rosa Mattos — Samuel Medina — Simone Xavier — Sirley Gomes — Taiane Gonçalves Dias — Thais Pampado — Verônika Medeiros — Vitor Pereira Jr. — Wellington dos Santos Novaes — Wes Barros

 
Livre para voar com o conto "Firme".
Edição de Edson Rossato, organização de Helena Gomes e Carla Yanagiura.
 
 
 
SINOPSE: Escrever é soltar as amarras que prendem a criatividade. Palavras escritas em uma folha de papel tornam-se cada vez mais leves e flutuam até ganharem o céu, rumo ao infinito. E aqueles que têm a ousadia de compor histórias com a liberdade que a literatura lhes permite nunca terão suas mentes encarceradas. Serão sempre livres para voar.
 
AUTORES: Aglaé Torres — Alexsandro Menegueli — Aline G. Alhadas — Anna Barbosa — Camilla Soto — Caroline Policarpo Veloso — Clarissa Roldi — Danielle Meniche — Davi Paiva — Evelyn Postali — Felipe Cantarelli – Flommar — Gabriel Messias – Gilborne — Gládiston de Souza — Glenn Von Beat — Jonatas Rubens Tavares — Kássio Nunes — L. E. Haubert — Lara Luft — Lauane Souza — Letícia Zampiêr — Lucas Janini — Lucas Marchette — Lucien Adedo — Lya Gallavote — Maciel Brognoli — Magnus Langbecker — Márcia Alcântara — Mayara Sousa — Miguel Nenevé — Milena M. — Murray Jordan — Nayara Fontenele — O. A. Secatto — Rafael Machado Costa — Raphael Cardoso — Ricardo R. Gitti — Robert Trebor — Tatiana Satake — Tiago France — Vitor Pereira Jr. — Vivian Albuquerque — William Wagner Westphal
 

 
 
 
 
 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Qual será o seu nome?

 

Todos os dias ele ia à panificadora pensando em vê-la.
Era linda.
Muito linda.
Perfeita, poderia dizer.
Estava apaixonado. Era platônico, os mais realistas e críticos alegariam, mas e daí? Era paixão! Estava apaixonado!
Maldita a hora em que ela aparecera! Tudo estava tão bem antes dela... Tomava o café tranquilamente e seu dia corria sem preocupações ou ansiedades... Agora, vê-la era uma necessidade. Ansiava extremamente angustiado por isto. Poderia dividir sua vida em AD / DD – Antes Dela e Depois Dela.
Qual será o seu nome? – Ele se perguntava, imaginando mil e um nomes que nunca se encaixavam perfeitamente com o rosto maravilhoso e o gracioso jeito de ser da donzela.
Não tardou para que ela o percebesse. Não havia como não notá-lo: O pobre diabo ficava visivelmente desconcertado ante a sua aproximação.
Amanhã chego perto dela – Ele pensava consigo – Não, faço melhor! Amanhã eu peço licença e me sento junto a ela. Conversamos e fazemos amizade. Logo, posso convidá-la para sair. Posso ser um sujeito apaixonante quando quero. Posso ser mesmo. Tipo, artista de cinema ou galã de novela. Posso sim!
Acontece que o nosso romântico herói não tinha lá muita coragem de se aproximar da adorável pequena.
Amanhã – Calculava – Amanhã!
E nisto, foram-se muitos dias, muitos amanhãs tornaram-se ontem e, finalmente, chegou a manhã em que a moça não apareceu.
Amanhã ela virá – Pensou.
E não veio.
Pode estar doente – Concluiu.
E a demora se estendeu.
Ela está de férias do trabalho – Supôs.
Mas a moça nunca mais apareceu, e o nosso galante pretendente ficou a se perguntar:
Qual era o seu nome?