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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Sopro


Fazia já bastante tempo que não havia quem a viesse visitar. Fazia bastante tempo, também, que não havia quem ela visitasse. Todos a quem conhecera, amados, odiados, queridos, indesejados, se haviam ido, soprados definitivamente da existência por aquela força milenar, incompreensível, irresistível e inevitável, a que a velha chamava de Fim. Mas ainda assim a velha prosseguia. A lenha que a mantinha aquecida era o passado. Seu combustível era uma mescla de lembranças e de saudades.
E pensava nisso quando se deu conta de que lá fora tudo era silêncio. O mundo emudecera.
Uma fumegante xícara de chá depositada sobre a mesa de centro permanecia intocada. As cortinas da janela da sala começaram a ser sopradas por uma delicada brisa; brisa esta que trazia para o interior da casa o cheiro puro e deliciosamente adocicado e primaveril das flores do jardim. A velha largou a bengala e ouviu o som oco e ecoante que o instrumento fez ao chocar-se contra o assoalho atapetado. Os ponteiros do relógio na parede pareceram mover-se cada vez mais vagarosamente, até cessarem por completo seu costumeiramente ininterruptível trabalhar.
A velha agarrou-se aos braços da poltrona como um náufrago se agarra aos destroços de um navio. Teve medo porque sabia que era o Fim que chegava. Mas, repentinamente, permitiu-se relaxar. Morreria sozinha, mas seu corpo poderia se despedir da vida, decompor-se, no silêncio, longe da tristeza dos vãos ritos funerários.
O que todos temiam era o mistério do Fim, mas essa brisa sobre ela já estava soprando.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Quando o trem partiu


A viagem naquela tarde prosseguiu normalmente até que bateram à porta da cabine da máquina.
-Abra Misael... – Era a voz do bilheteiro que apelava ao condutor – Pelo amor de Deus, abra essa porta!
Assim que a cabine foi aberta, o maquinista viu-se diante da seguinte cena: O bilheteiro rendido por dois mascarados que o aterrorizavam com uma pistola em cada têmpora.
-Pare o trem, homem! – Ordenou um dos mascarados, fazendo pontaria no peito de Misael – Se fizer tudo certo, ninguém morre hoje.
Como o condutor vacilasse, o bandido tratou de explicar:
-Temos quase uma dúzia de homens aqui dentro. Todos os vagões estão tomados, todos os passageiros dominados. Não vai querer nenhuma morte em sua consciência, não é mesmo?
Misael freou o trem e ficou aguardando as instruções dos criminosos. A partir deste ponto, aquele que mirava a cabeça do bilheteiro passou a dar as cartas.
-Sejamos breves: Sabemos que um de seus passageiros carrega uma mala repleta de barras de ouro do tesouro nacional. O que ignoramos é a sua identidade. No entanto, temos a informação de que você, senhor maquinista, a conhece.
-Não faço ideia do que estão... – Mas Misael foi interrompido após receber uma forte coronhada, que o levou de encontro ao chão.
-Sem jogos, que a informação e o informante são quentes – O agressor grunhiu - Bem, temos duas opções para por um fim nisso: Ou você nos conta quem é o homem, e isso seria o jeito mais simples de resolver a questão, ou nós matamos você e o seu amiguinho aqui – apontou o bilheteiro – e revistamos todas as bagagens da composição, apagando quantos passageiros forem necessários para encontrar o que procuramos.
-E vocês não querem perder tempo na busca porque estamos próximos da estação seguinte e os federais não demorariam a vir assim que notassem a demora – Concluiu o maquinista, ainda zonzo pela pancada recebida.
-Exato – O bandido coçou o rosto sob a máscara – E então, o que vai ser?
-O passageiro está na cabine dezoito – revelou Misael pesaroso - Emanuel González. Este é o homem que vocês querem.
-Sábia decisão, muchacho! – O criminoso gargalhou.
O maquinista e o bilheteiro foram, então, amarrados de costas um para o outro. Assim que os dois mascarados se afastaram da cabine, o bilheteiro murmurou:
-Então essa é a saída que encontraram para evitar os assaltos, é? Os agentes do tesouro vão querer o teu couro por essa, Misael.
-Tenho esposa e um menino adoentado em casa, filho – O condutor suspirou – Morrer é um luxo o qual não posso usufruir. Danem-se os agentes e o maldito tesouro!
-Esses bandidos de uma figa se portaram como passageiros a viagem inteira! – Queixou-se o bilheteiro, pensativo – Decerto que na hora de entrar apresentaram nomes falsos.
-É provável – Misael concordou.
-Será o bando dos irmãos Gun? Aqueles dois que nos amarraram tinham até as vozes parecidas – Refletiu o bilheteiro, ao que o amigo de trabalho pareceu não dar ouvidos.
Repentinamente, uma série de tiros ecoou. Por longos minutos o mundo pareceu emudecer. Logo, um dos passageiros chegava à cabine. Enquanto soltava os dois funcionários do trem, relatou:
-Os criminosos crivaram de balas um dos passageiros da cabine dezoito e levaram sua bagagem.
-Ele reagiu? – o bilheteiro questionou.
-Pareceu que não – Respondeu o passageiro, ainda desatando as cordas.
-Meu Deus! Mataram o homem em vão! – Exclamou o maquinista.
-Não sei se foi bem assim – agora o homem terminava com as cordas – Eles o agradeceram por uma “dica”.
-Então o próprio agente era o delator! – Concluiu o bilheteiro – Mas qual era o objetivo daquela cena toda aqui na cabine?
-Só poderia se tratar de um plano para inocentar o homem da “dica” – Deduziu Misael - Mas na última hora os criminosos parecem ter optado por eliminá-lo, tendo, assim, um elemento a menos com quem dividir o pacote – voltou-se para o seu libertador – E os bandidos já se foram?
-Sim. Homens a cavalo os esperavam lá fora.
O maquinista olhou pela janela da cabine e pôde ver o trotar dos animais erguendo poeirão lá longe no desértico cenário cujo fim os olhos perdiam.

Quando o trem partiu, o maquinista se permitiu sorrir aliviado: O agente assassinado passara por delator e em breve Misael Júnior teria os remédios de que tão precisava.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O admirador secreto


Continho vencedor do 1º Concurso de Contos Casa do Escritor - categoria acima de 24 anos.

Bernardo por semanas a fio enviou flores, caixas de bombom e cartas românticas e inspiradas à sua vizinha, Lucinda, por quem estava perdidamente apaixonado. Como era um sujeito tímido, o tal Bernardo acabou fazendo uso da antiga brincadeira do admirador secreto. Nada como um pouco de mistério para despertar uma paixão! O pretendente foi tão convincente em seu papel de “secreto”, que chegou a usar outro número de celular para trocar mensagens com Lucinda.
Combinaram de se encontrar em um Shopping. A moça, ansiosa que estava, chegou bem antes do horário programado. Bernardo, coração aos pulos, apareceu, trajando sua melhor roupa, trazendo nas mãos trêmulas um belo e enorme buquê. Lucinda mostrou-se surpresa ao vê-lo.
-Que faz aqui? – Questionou a moça – Também veio para um encontro?
Bernardo, diante de sua paixão, acovardou-se vergonhosamente.
-Sim. Marquei com uma moça que conheci estes dias... – mentiu o admirador.
-E eu finalmente vou conhecer o meu admirador secreto! – Lucinda não escondeu o sorriso.
-Nossa! Que coisa mais antiquada isso de “admirador secreto”! – O rapaz fez cara de desfeita.
-Pois eu acho super-romântico! – Só faltou à admirada suspirar – Acho que ele está atrasado... – Consultou o pequeno relógio no pulso.
-É mesmo! – Bernardo disfarçou, olhando para todos os lados – A minha companhia também ainda não chegou – Ele não sabia mais onde metia a cara. Temia que Lucinda descobrisse a sua “identidade”. Talvez o próprio nervosismo o entregasse...
Ficaram esperando, em silêncio, por um longo tempo.
-Acho que levei um bolo – Lucinda abaixou a cabeça e começou a revirar o interior da bolsa que trazia no ombro direito – Vou mandar uma mensagem perguntando onde ele está! – Tomou o celular.
-Nada disso! – Bernardo a impediu – Se ele não aparece, é ele quem sai perdendo. Você não pode se humilhar – Aquela tática TINHA que dar certo, caso contrário, o celular em seu bolso tocaria no exato momento em que Lucinda enviasse a mensagem – Ainda mais se humilhar para um estranho!
-É admirador secreto, não admirador desconhecido – Explicou a garota – Pode ser alguém próximo a mim.
-Duvido! Se fosse alguém que você conhece, falaria contigo de uma vez, não faria este teatro todo – Fez uma expressão desaprovadora – EU faria isso...
-É... Pode ser... – Lucinda sorriu – Acho que você também levou um bolo...
-Pois é... Que coincidência... Bem, o que acha de aproveitar que estamos aqui e inventarmos alguma coisa?
-Eu topo!
Bernardo entregou-lhe o buquê e saíram de braços dados. Formavam, afinal, um belo casal. O rapaz pensava consigo que se tivesse feito diferente, se revelando, as coisas não sairiam tão perfeitas.
Pobre do sujeito que acha que pode mentir ou esconder os seus sentimentos de uma mulher: Enquanto o homem dá dois passos, a mulher já tem percorrido a trilha inteira.