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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Eis a questão...

Só uma questão era capaz de reter sua obra: Será que as musas dão pela existência dos poetas? 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Delator

Queria muito manter aquela paixão em segredo, mas com o coração entrando em jogo não teve jeito.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

À ela


Naquele dia passara tanto tempo próximo a ela, e voltara para casa arrependido: Por que não aproveitara para admirar ainda mais seu belo rosto?

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os segredos e o tempo


Conto a ser publicado na antologia "Se todos fossem iguais á você..." da Câmara Brasileira de Jovens escritores.

Embora aquela tivesse sido uma boa relação e sempre tivessem se dado muito bem, ele lhe escondera um grande segredo:
Era ela a causadora de sua insônia durante todo aquele longo (e ido) período de tempo.
Sim... Lembrava muito bem da época em que dividiam uma mesma cama. Ficava praticamente a noite inteira procurando encontrar uma boa posição que facilitasse a chegada do sono, sempre evitando olhá-la, pois era exatamente isso que o impedia de dormir: Uma vez que seus olhos cruzassem com a serenidade daquele lindo rosto, sua atenção estaria totalmente capturada, concentrada e imersa na beleza daquelas delicadas linhas faciais, na leve movimentação das narinas que acompanhavam a doce respiração, no jeito como as unhas compridas, bem cuidadas, e quase sempre descoloridas, frequentemente vinham a coçar o mesmo e exato ponto do queixo.
Era um dos muitos hábitos (manias?) dela o de dormir de lado, trazendo as mãos entreabertas próximas ao peito, virada para a direção dele! Era, assim, portanto, atraído, fisgado. Olhando-a, era-lhe simplesmente impossível dormir. Mas como não olhá-la? Até mesmo quando seus olhos se encontravam fechados, clamava por aquela visão. Constantemente na escuridão a procurá-la.
Certas madrugadas eles passavam abraçados no sofá diante da TV ligada. Ela dormia. Ele, colado às costas dela, com a cabeça recostada sobre aquele frágil pescoço, sentia o cheiro. Não do perfume que dificilmente ela usava. O cheiro do corpo dela. Era nesse momento ele a abraçava mais forte e beijava de leve a sua face.
Quando ela tinha sonhos ou pesadelos, ele acompanhava suas reações ante aqueles dois extremos: Breves sorrisos, expressões profundas de alegria, longos desesperos, mergulhos na mais pura agonia. E era nestas horas que ele sempre roçava de leve a sua mão buscando, de alguma forma, usufruir um pouco daqueles bons momentos oníricos ou, então, tentando tranquilizá-la no absoluto terror.
Poderia passar a noite inteira, parado, olhando-a. E foram muitas as vezes em que o fez.
E quando, no meio da madrugada, ela murmurava palavras incompreensíveis, ou então desconexas, ele imaginava que era seu nome que ela chamava. Que em seus sonhos era com ele que ela estava. Que todo o amor que por ele sentia ela declarava.
Às vezes não resistia e passava a mão por seus longos cabelos. Noutras alisava seu rosto, acompanhando, calmamente, cada linha. E quando terminava o ritual, o repetia mais uma vez. E outra. E outra... Perdia-se naquela face. E se fosse possível, se tivesse havido uma noite eterna, se perderia definitiva e infinitamente. Adorava acariciar seu rosto. E ela não acordava com o seu toque. Tinha o sono profundo. Não fingia. Não. Ele tinha certeza: A razão de sua insônia profundamente dormia. Inocente (e como e porque não?), ela não tinha noção do grave dano que ao sono de seu companheiro causava e o quanto, apenas por suprir a básica necessidade de dormir, o afligia.
Nas noites frias, ele a abraçava e por ela era abraçado. Via, nestas ocasiões, aquele rosto ainda mais de perto, por vezes quase colado ao seu, noutras em seu peito encostado. E maior era o seu martírio. Sentia o calor leve que daquele corpo emanava e então a tentação vinha mais forte do que nunca. Mas não ousava interromper aquele momento sagrado. Embora muito quisesse, não procurava o seu toque, as suas carícias, o seu suor, o seu sexo. Não enquanto dormisse. Não poderia e nem conseguiria voluntariamente acordá-la.
E nas raras vezes (e nos curtos períodos de tempo) em que conseguia dormir, ele tinha sonhos, todas as suas palavras, murmuradas, eram compreensíveis, tinham sentido: o nome dela ele chamava, era com ela que ele estava e todo o seu amor por ela ele declarava.
Aquele era o segredo: aquela moça era a causadora da sua insônia. E mesmo passado tanto tempo, ainda o era. A diferença é que antes ele não conseguia dormir por tê-la ao seu lado e agora não pregava os olhos por não mais tê-la.
Mas havia outro segredo.
Ainda mais secreto.
Ele a amara.
E ainda a ama.
E todas as noites ora para ter novamente, ao menos apenas mais uma vez, aquele martírio, em sua cama.
Uma pena ele ter escondido, sob uma camada fina e levemente ofensiva de indiferença, toda a intensidade dos seus sentimentos.
Triste é a sina de certos segredos: Quando não revelados no momento propício, passada a devida oportunidade, estão ultrapassados, fadados á insignificância, ao esquecimento, e, uma vez enterrados, se perdem no tempo.
 
 
 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A escolha de Dolores

 Esperta mesmo era Dolores, que procurava paixões, não amores.

Qual será o seu nome?

 

Todos os dias ele ia à panificadora pensando em vê-la.
Era linda.
Muito linda.
Perfeita, poderia dizer.
Estava apaixonado. Era platônico, os mais realistas e críticos alegariam, mas e daí? Era paixão! Estava apaixonado!
Maldita a hora em que ela aparecera! Tudo estava tão bem antes dela... Tomava o café tranquilamente e seu dia corria sem preocupações ou ansiedades... Agora, vê-la era uma necessidade. Ansiava extremamente angustiado por isto. Poderia dividir sua vida em AD / DD – Antes Dela e Depois Dela.
Qual será o seu nome? – Ele se perguntava, imaginando mil e um nomes que nunca se encaixavam perfeitamente com o rosto maravilhoso e o gracioso jeito de ser da donzela.
Não tardou para que ela o percebesse. Não havia como não notá-lo: O pobre diabo ficava visivelmente desconcertado ante a sua aproximação.
Amanhã chego perto dela – Ele pensava consigo – Não, faço melhor! Amanhã eu peço licença e me sento junto a ela. Conversamos e fazemos amizade. Logo, posso convidá-la para sair. Posso ser um sujeito apaixonante quando quero. Posso ser mesmo. Tipo, artista de cinema ou galã de novela. Posso sim!
Acontece que o nosso romântico herói não tinha lá muita coragem de se aproximar da adorável pequena.
Amanhã – Calculava – Amanhã!
E nisto, foram-se muitos dias, muitos amanhãs tornaram-se ontem e, finalmente, chegou a manhã em que a moça não apareceu.
Amanhã ela virá – Pensou.
E não veio.
Pode estar doente – Concluiu.
E a demora se estendeu.
Ela está de férias do trabalho – Supôs.
Mas a moça nunca mais apareceu, e o nosso galante pretendente ficou a se perguntar:
Qual era o seu nome?

sábado, 3 de agosto de 2013

sábado, 15 de junho de 2013

Conselhos amorosos



Vendo que nenhuma de suas relações tinha vida longa, Mateus foi pedir conselhos amorosos ao velho tio Leocádio. O irmão de seu falecido pai fora casado por quase cinco décadas. O que impedira aquela união de completar bodas de ouro foi a morte da esposa. Mateus ainda lembrava-se da tia. Era uma boa mulher.

-Não consigo entender isso chamado amor, tio. – Queixou-se o sobrinho.

-O amor é o sentimento mais conflituoso que existe. Não se deve tentar compreendê-lo – Explicava o idoso - mas sim aprender com cada nova experiência e descoberta. O amor é composto por companheirismo, confiança e fidelidade e exige compreensão, devoção e sacrifício. Enquanto não estiver preparado para isto tudo, não estará pronto para amar.

-Que bonito tio – Mateus estava admirado com as palavras de Leocádio – Posso ter errado, e feio, nas minhas relações, mas sempre enfrentei um problema: O senhor sabe quando o amor vai morrendo aos poucos...?

-O amor não é algo que nasce e pode simplesmente apagar-se ou morrer. Ele é mais forte que tudo o que há. É a representação da vida e persistirá enquanto houver uma única chama ardendo ou enquanto respirar nem que seja somente uma das partes envolvidas. Sinto te dizer que as experiências que você teve não envolviam amor. Paixão, talvez.

-Paixão...

-Sim... A paixão, ao contrário do doce sentimento chamado amor, dá frutos amargos e costuma ser avassaladora. Trata-se de uma droga, um vício, que te transforma, prende, viola, escraviza, corrói... Disseminada pelo anjo caído, é uma das grandes tentações e perdições da vida terrena.

-Como distinguir amor de paixão?

-Quando o teu corpo pedir loucamente a presença de uma pessoa e você se sentir preso a ela, acredite: Você está apaixonado. Mas quando o teu coração pedir alguém incessantemente e nada nem ninguém for capaz de aplacar ou substituir esta presença, acredite: Você a ama.

-Então foi paixão mesmo – Mateus ficou cabisbaixo - Ao menor sinal de problema, sempre desisti das minhas relações. Mas... Um verdadeiro amor... Quem em sã consciência não lutaria por ele?

-Agora você está começando a entender – Leocádio sorriu.

-Outro problema que sempre enfrentei, tio, foi não conseguir demonstrar os meus sentimentos.

-Bem, isto é questão de ser humilde e abrir o coração. Se for o caso, provar o que alega. Mas veja bem: Uma prova de amor não precisa ser uma obra de grande suntuosidade, mas tem que ser, indubitavelmente, uma obra de sinceridade.

-Tio, qual o grande segredo do amor?

-Não dê ouvidos e não se deixe influenciar por este mundo egoísta no qual vivemos, repleto de pessoas egoístas com as quais convivemos: Para provar do amor, deve-se amar mais ao outro do que a si próprio.

Mateus agradeceu e partiu. Enquanto se afastava da casa de Leocádio, o rapaz pensou:

-“Amar mais ao outro do que a si próprio”? Mas é um velho trouxa mesmo!