terça-feira, 18 de junho de 2013

sábado, 15 de junho de 2013

Conselhos amorosos



Vendo que nenhuma de suas relações tinha vida longa, Mateus foi pedir conselhos amorosos ao velho tio Leocádio. O irmão de seu falecido pai fora casado por quase cinco décadas. O que impedira aquela união de completar bodas de ouro foi a morte da esposa. Mateus ainda lembrava-se da tia. Era uma boa mulher.

-Não consigo entender isso chamado amor, tio. – Queixou-se o sobrinho.

-O amor é o sentimento mais conflituoso que existe. Não se deve tentar compreendê-lo – Explicava o idoso - mas sim aprender com cada nova experiência e descoberta. O amor é composto por companheirismo, confiança e fidelidade e exige compreensão, devoção e sacrifício. Enquanto não estiver preparado para isto tudo, não estará pronto para amar.

-Que bonito tio – Mateus estava admirado com as palavras de Leocádio – Posso ter errado, e feio, nas minhas relações, mas sempre enfrentei um problema: O senhor sabe quando o amor vai morrendo aos poucos...?

-O amor não é algo que nasce e pode simplesmente apagar-se ou morrer. Ele é mais forte que tudo o que há. É a representação da vida e persistirá enquanto houver uma única chama ardendo ou enquanto respirar nem que seja somente uma das partes envolvidas. Sinto te dizer que as experiências que você teve não envolviam amor. Paixão, talvez.

-Paixão...

-Sim... A paixão, ao contrário do doce sentimento chamado amor, dá frutos amargos e costuma ser avassaladora. Trata-se de uma droga, um vício, que te transforma, prende, viola, escraviza, corrói... Disseminada pelo anjo caído, é uma das grandes tentações e perdições da vida terrena.

-Como distinguir amor de paixão?

-Quando o teu corpo pedir loucamente a presença de uma pessoa e você se sentir preso a ela, acredite: Você está apaixonado. Mas quando o teu coração pedir alguém incessantemente e nada nem ninguém for capaz de aplacar ou substituir esta presença, acredite: Você a ama.

-Então foi paixão mesmo – Mateus ficou cabisbaixo - Ao menor sinal de problema, sempre desisti das minhas relações. Mas... Um verdadeiro amor... Quem em sã consciência não lutaria por ele?

-Agora você está começando a entender – Leocádio sorriu.

-Outro problema que sempre enfrentei, tio, foi não conseguir demonstrar os meus sentimentos.

-Bem, isto é questão de ser humilde e abrir o coração. Se for o caso, provar o que alega. Mas veja bem: Uma prova de amor não precisa ser uma obra de grande suntuosidade, mas tem que ser, indubitavelmente, uma obra de sinceridade.

-Tio, qual o grande segredo do amor?

-Não dê ouvidos e não se deixe influenciar por este mundo egoísta no qual vivemos, repleto de pessoas egoístas com as quais convivemos: Para provar do amor, deve-se amar mais ao outro do que a si próprio.

Mateus agradeceu e partiu. Enquanto se afastava da casa de Leocádio, o rapaz pensou:

-“Amar mais ao outro do que a si próprio”? Mas é um velho trouxa mesmo!

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Louca mania

 
 
      Que mania doida é esta de pensar? Ficar pensando, o tempo todo, todo dia, sem parar...
      Pensar em tudo, no tudo, no todo. Em todo aspecto, da vida, do jogo.
      Se o vento sopra, para onde ele nos levará? Se o mar sacoleja, quem o está a movimentar? Se a noite é escura, porque sempre no mesmo horário apagam-se as luzes? Se nós somos gente, porque agimos constantemente como animais? Se existe o permanente, porque vivemos voltando para trás?
      Seria a dor de dente uma as provocações de Satanás? De trás para frente, de frente para trás, se não temos direção estipulada, porque perder tempo procurando a correta e não simplesmente nos direcionarmos á nosso modo?
      Se o disco voador, o lobisomem, o vampiro e o dragão realmente não existem, porque são tão mencionados e cultuados desde o princípio dos tempos? Está o mal dentro de todos nós? Cedemos á ele por escolha própria ou somos forçados á ele nos curvar?
      Se uma pergunta procura, por sua função lógica, uma resposta, porque, quando encontramos a solução que procuramos, outras milhares de questões vem á tona? Porque desgraça pouca é bobagem e tudo o que é bom dura pouco?  Porque quem está certo é certo, e quem está errado é louco?
      Porque o dinheiro nos movimenta, se ele é a mais pura dentre as ilusões? Nos envolve, nos condena, a passar a vida toda na pior dentre as prisões. Se tudo fosse fácil demais, não teria a vida a menor graça, porque sempre desejamos que as coisas nos sejam facilitadas? Se a vida foi feita exclusivamente para se viver, porque vivemos com um intenso medo de morrer? Se o amor, este sentimento bonito, existe de fato, porque toda relação envolve ressentimentos e dor?  Porque esta louca e falha obsessão humana por generalizar e rotular tudo? Por organizar e separar tudo? Por controlar e direcionar o mundo?
       Porque perguntamos quando temos a mais absoluta certeza de que não conseguiremos responder? Porque nos isolamos se jamais conseguiremos nos esconder? Porque fingimos ser algo que nunca iremos ser? Porque desejamos o que não podemos ter?
        Porque o homem tanto lixo consome? Porque o cérebro sente fome? Porque tanta gente some? Porque sempre o líquido melhor está em outra fonte?
        Porque a volta sempre é mais rápida que a ida? Porque nos só pensamos quando já nos encontramos sem saída? Porque, para o criador, a perfeição nunca é obtida? Porque a maior parte de nossa capacidade mental permanece retida? Para onde foi a amizade, a ternura, entre os iguais, os irmãos, que permanece desaparecida?
        Quando foi que a vontade humana de revolucionar e lutar por seus direitos e vontades morreu? Quando foi que a tomada do mal se sucedeu? Quando e onde foi que a inocência de nossas crianças desapareceu? Tudo no mundo mudou tão rápido... O que aconteceu?
        Todos temos nossas manias, loucas manias, gostosas, tão próprias de nós mesmos, que nos fazem ser quem nós somos de fato. Essa minha louca mania só me tem feito mal. Tudo em minha vida tem se resumido á uma obsessão total. As pessoas me olham de forma estranha ao passarem por mim nas ruas e confesso que eu mesmo tenho estranhado ao ver o reflexo da minha imagem no espelho.
        Louca mania, louca mania sem fim, larga logo, larga de mim...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Estranho vírus



Certa vez espalhou-se, na cidade de Pinheiros, um estranho vírus cujo principal sintoma (e único constatado) era que as pessoas (os supostos infectados) andavam sempre tristes, atentas, com certo ar de expectativa no semblante, como se esperassem algo acontecer. Não se sabia quais os malefícios desta doença, mas chegou-se á conclusão de que era extremamente contagiosa, uma vez que o número de contaminados aumentava, em grande velocidade, mais e mais.
A Secretaria de Saúde do município reuniu uma junta com os melhores médicos de Pinheiros a fim de encontrar uma cura para o tal vírus, que acabou ficando popularmente conhecido como “Esperando acontecer”. Os doutores pesquisaram muito, dedicaram-se única e exclusivamente á essa causa, examinando e fazendo testes, inclusive, nos afetados pela doença. Nada descobriram. Chateados com o fracasso, aqueles em quem toda a cidade havia depositado a confiança (e esperanças), simplesmente cruzaram os braços e mais nada fizeram. Pronto: Parecia que também haviam sido infectados.
Por um incrível e inexplicável milagre da natureza, aquele vírus sofreu uma mutação, tornando-se o “Fazendo acontecer”.
As coisas melhoraram, e muito, para os pinheirenses, desde então.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O duelo


Quando as leis já não eram mais suficientes (e quem poderia alterá-las, por conveniência, nada fazia), a Justiça, que não tinha mais a serpente aprisionada sob seus pés, decidiu agir por conta própria e chamou a Impunidade, que se prevalecia em meio à sociedade, para um duelo de vida ou morte. Em jogo, o futuro de toda uma nação.
A desafiante e a desafiada encontraram-se no lugar previamente combinado. A Justiça, com os olhos vendados e sua espada reluzente, largou a balança, que sempre carregava, para melhor duelar. Jamais admitiria, mas não acreditava mais naquele equilíbrio. As Leis todas tinham sido pisoteadas pela Impunidade, que agora provocava, irritantemente, a Justiça.
-O fato de a Impunidade imperar – falava de si em terceira pessoa – É um indício claro de que a Justiça é falha.
-A Justiça não é falha – defendeu-se a cega dama – Mas fracassará se não tiver o apoio de Leis rígidas e eficazes. Sozinha, a Justiça não poderá vencer nenhuma batalha - E dizendo isto, esperava que novas Leis se erguessem para auxiliá-la.
-Cale-se, sua tola! – Atalhou a Impunidade - Discursos ingênuos não são armas para uma guerra!
-A arrogância de uma força em ascensão também não.
-A Impunidade tem caminhado com o homem, lado a lado, desde o princípio dos tempos, para mostrar que a Lei nada mais é do que um ideal. Uma utopia. Não fala aqui a voz da arrogância, mas sim a da razão. A da certeza. A Justiça foi gerada, precocemente, para encarar uma batalha perdida, pois o homem, que a representa e dá luz às suas Leis, é corruptível e imoral.
-A Justiça, assim como suas Leis, está aqui para provar que existe um equilíbrio na balança – insegura, a Justiça encarou o referido instrumento caído á uma considerável distância – E que para os infratores, existe punição! – E empunhou ameaçadoramente a sua espada.
A Impunidade lançou-se, repentinamente, de mãos nuas, sobre a desafiante. A espada da Justiça trespassou, num único movimento, o peito da Impunidade, que gargalhou loucamente e, com a espada ainda cravada no tórax, esbofeteou seguidamente o rosto de sua rival, chutando-a, assim que esta caiu, e cuspindo em sua face. Impunidade retirou, sem expressão de dor, a espada que a importunava e quebrou-a com o mínimo esforço empenhado. Prostrada no chão, humilhada, abafada pela Impunidade, que mantinha o pé sobre suas costas, a Justiça respirava com dificuldade.
-Preparada para o Grand Finale? – Perguntou, em tom de deboche, a Impunidade.
-Sim... Eu tinha razão... Sem boas leis, não se pode fazer justiça.
Sem hesitar, a Impunidade debruçou-se sobre a Justiça e partiu seu pescoço com uma única torção. A vitoriosa pulou sob a carcaça de sua desafiante e correu em direção ao Caos e à Injustiça, irmã gêmea má da perdedora daquele duelo, que assistiam a tudo de camarote. Em meio á comemoração, abraçaram-se emocionada e demoradamente.
A Injustiça, a Impunidade e o Caos partiram. Havia, ainda, muito trabalho a fazer e novas leis a disseminar.