terça-feira, 23 de junho de 2015

Corporal



Sofro.
Sofro sim.
Sofro muito.
Mas meu sofrimento...
O meu sofrimento é mera e unicamente corporal.
Meus braços queixam-se, compreensivelmente, por ser movimentados para outra atividade que não seja segurar-te. Abraçar-te.
Minhas mãos e os meus dedos estão profundamente frustrados por não poderem contornar, estudando, demoradamente, cada linha harmoniosa do teu gracioso rosto.
As minhas pernas e os meus pés estão revoltados, pois minhas caminhadas já não mais os levam até ti. E deixaram claro que por mais distante, árduo e sôfrego que seja o trajeto, o completariam com prazer para realizarem este nosso reencontro.
O meu peito clama, dolorosamente, todas as santas noites insones, pelo recostar e repousar da tua cabeça. Espera poder novamente aninhar-te.
Os meus cabelos, pobres coitados, exigem, ao menos uma vez mais a delícia de por ti serem tocados, percorridos e alisados.
Meus ouvidos se entristecem somente em rememorar o fato de que já não irão mais ouvir a tua doce voz, que a eles tão bem fazia.
Meu nariz fareja, constantemente, onde quer que esteja, na esperança vã de captar um resquício da tua acalentadora fragrância natural. Do teu maravilhoso perfume.
Os meus olhos... Ah, os meus olhos! De tão fiéis a ti, fizeram greve por tempo indeterminado. Alegando causa inegociável, eles se recusam a abrir, a não ser que seja na tua presença. Choram inesperada e constantemente a tua ausência.
Os meus lábios movimentam-se sem vontade, certos de que as minhas palavras não chegarão até você. E não são raras as vezes em que os flagro pronunciando, baixinho, com saudades, o teu belo nome.
O meu cérebro, dono de uma memória infalível, insiste em me levar em um passeio nostálgico pelos momentos maravilhosos que contigo compartilhei. Nele, só existe você, você e você. Trata-se de um espaço, de um altar, de pureza, tributo e adoração eternos.
E o meu coração... O meu coração, no cumprimento leal das obrigações de suas funções, bate fraco, descompassado, triste. Repleto de amor, não quer ser entregue a outra pessoa que não seja a você.


Continho anteriormente publicado no Recanto das Letras

terça-feira, 2 de junho de 2015

Bicho de sete cabeças - Geraldo Azevedo


"Não dá pé
Não tem pé, nem cabeça
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo"

domingo, 24 de maio de 2015

Entrelinhas

Quem não via a sua mão nervosamente a rabiscar achava que ele realmente estava lá.

Na cozinha

A cada dia vida se tornava mais deliciosa.

O anfitrião

Não gostava de festas, apreciava as companhias.

Velocista estrategista

Passou o dia inteiro correndo, desesperado, para tirar o atraso dos dias em que ficara parado.

Visão espacial

Vislumbrou o globo terrestre inteiro nos olhos brilhantes e repletos de vida do filho recém-nascido.

Aperto

Os números corriam e ele, temeroso, orava para que os próximos produtos não extrapolassem o valor que tinha na carteira.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Haicais

Haicais (mais do que) experimentais publicados anteriormente no Recanto das Letras .


Espaço

Na solidão
encontro espaço
No vazio do meu quarto

Sonhos profundos

Em meus sonhos mais profundos
Sinto falta
Do tempo que não tivemos juntos

Despedida

Entristece-me a partida
Embora retire-me vitorioso
Despeço-me da vida
















Três tempos

O Passado foi embora
O Futuro demora
O Nosso Tempo é o Agora















Saudade, Saudade, Saudade...

Embarco com a solidão
Rumo a uma longa e triste viagem:
Na mala, somente saudade, saudade e saudade...














Sombra fria

À noite,
Cama vazia
De dia, sombra fria













Saldo

Maldita realidade:
Das doces ilusões semeadas
Só foram colhidas amargas vontades