Carregava papel e caneta consigo aonde quer que fosse, pois a vida precisava, com urgência inadiável, ser expressada.
Gostaria de ser como as palavras... Na impossibilidade de sê-lo, sou escritor; assim, mantemos contato.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
Pausa temporal
O tempo parou de passar no exato momento em que ela parou de encarar o relógio.
A partir de então, não esteve mais sujeita ao tempo...
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
Esta casa tem... (Ou "A horrível, perturbadora e interminável fonte de horrores")
Conto poetizado sobre o mal
Deterioração da mente sobre a matéria, de Otto Rapp
Um jovem fez uma aposta com amigos: Adentrar uma casa
que, segundo rezava a lenda, era mal assombrada.
Desde então nunca mais o viram.
Diante da porta do sinistro casarão foi encontrado,
assinado pelo desaparecido, o seguinte escrito:
Esta casa tem...
Companhia na solidão.
Uma presença no porão.
O ressoar de uma maldição.
O ladrar persistente de um cão.
Os constantes estrondos do trovão.
Vozes caladas.
Pessoas peladas.
Línguas arrancadas.
Almas condenadas.
Outras desencarnadas.
Ecos em salas abarrotadas.
Pessoas idosas sendo torturadas.
Arrepiantes e inesperadas gargalhadas.
Doces salgados.
Fetos abortados.
Loucos embriagados.
Leitores incomodados.
Cômodos desocupados.
Bonecos de vodu costurados.
Criminosos há muito procurados.
Passagens de vultos intercalados.
Órgãos reprodutores amputados.
Preservativos sujos reaproveitados.
Coisas cabeludas.
Aberrações fecundas.
Miados de crias felpudas.
O gritar de pessoas mudas.
Portas abertas por mãos peludas.
Espelhos refletindo coisas absurdas.
Carcaças dilaceradas por garras imundas.
Furo na veia aorta.
Frutos podres na horta.
Gente que não se importa.
Pessoa que não se comporta.
O trabalhar da lâmina que corta.
Fulana caminhando mesmo após morta.
Campainha tocando sem ninguém à porta.
Mordomo estranho de voz grossa e boca torta.
Pessoas tentando desviar a atenção do que importa.
A serpente e seu mérito.
Escarros pendurados no teto.
Um sentimento ruim sempre perto.
Corredores repletos de vômito fétido.
O caminhar de um corpo totalmente gélido.
A morte executando um movimento intrépido.
O gargalhar de alguém completamente histérico.
Crianças chorando no banheiro.
Vozes sussurrando o tempo inteiro.
Lâmina ensanguentada de barbeiro.
Mãos saindo de dentro do travesseiro.
Um maníaco com uma faca, sorrateiro.
Mulheres escandalosas fugidas de um puteiro.
Alguém falando em estranho idioma estrangeiro.
Indivíduos muito mal intencionados.
Espíritos barulhentos, mal educados.
Quartos supostamente desocupados.
Homens falando sozinhos, impressionados.
Vermes rastejantes por espetos trespassados.
Quartos mal iluminados, muitos deles assombrados.
Sujeitos bem acompanhados, mas muitos deles calados.
Um espírito atormentado atormentando inquilinos desequilibrados.
E um anfitrião invisível e muito, muito perturbador, trazendo a vida a seres inanimados.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
sábado, 26 de janeiro de 2019
Quando as paredes falam I
(Fotografias extraídas da internet)
Às vezes as paredes te convidam a refletir
Noutras te desejam coisas boas e sinceras
Algumas de suas afirmações podem soar cruas, frias.
Outras um tanto quanto dolorosas.
Algumas paredes vêm alertar.
Algumas fazem boas propostas.
Há aquelas cujo intuito é esbofetear.
Há aquelas otimistas.
E aquelas que nem tanto...
Algumas paredes fazem convites no mínimo interessantes.
Muitos destes convites deveriam ser aceitos.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2019
Prisioneiro do passado
Clamava por liberdade, sem perceber que havia aprisionado a si mesmo.
E o pior: fizera nós indissolúveis.
Danos colaterais
Viram o estrago feito assim que findou a colheita.
Teriam destruído sua própria casa?
-Somos invasores e depredadores do nosso próprio planeta.
Lecionar
Preparava tudo com muita atenção e carinho...
Apesar disso, não raro via-se falando e aprendendo sozinho...
domingo, 13 de janeiro de 2019
Areias e (ou ao) vento
Inspiração para esta poesia. Fotografia de Luciana Perli.
As pegadas, impressões na
areia,
Denotam por onde passou
Acompanhadas, revelam a
trajetória
Do ponto de chegada àquele
onde tudo começou
Basta, no entanto, o
vento soprá-las,
Para que se apaguem por
completo
Então a areia, a terra, superfície
lisa,
Tabula rasa, terá
esquecido todo o resto
Assim se apagam as
pegadas de todos os demais animais
Somos nós, “seres”
humanos, que costumamos deixar coisas para trás
Impressões mais fortes, mais
duradouras,
Mas não tão resistentes a
ponto de se tornarem eternas
Nossas “pegadas”, nossas
obras, o que fica quando nos vamos,
Revelam mais do que
apenas os caminhos por nós percorridos
Trazem à tona a nossa
essência, aspirações, ambições, reflexões,
Medos, crenças,
sentimentos, sonhos, sorrisos
A areia, a vida; o vento,
o tempo.
Nós, apenas breves
impressões na areia da vida
Aqui apagados para
sempre, pelo vento do tempo,
Para, em breve, rumo à eternidade,
Nos encontrarmos, além do
esquecimento terrestre,
Em direção a terras mais
frutíferas
E brisas mais amenas
Quem sabe não nos
juntemos à areia
E ajudemos a soprar o
vento?
Poesia participante da exposição fotográfica "Diálogos visuais", de Luciana Perli, que compôs a programação da 6ª edição da Feira do Livro de São Francisco do Sul - SC. Mais informações em: http://www.saofranciscodosul.sc.gov.br/noticia/5700
Poesia participante da exposição fotográfica "Diálogos visuais", de Luciana Perli, que compôs a programação da 6ª edição da Feira do Livro de São Francisco do Sul - SC. Mais informações em: http://www.saofranciscodosul.sc.gov.br/noticia/5700
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